Por João Francisco Pupo

Natal é tempo de «Star wars» e, como tal, afigura-se-nos como o programa merecido depois das migrações regionais a que alguns natais obrigam, intoxicação por doces e álcool, abraços de familiares e amigos, papel de embrulho, poucas horas de sono, enfim — como o programa merecido, depois dos dias que poderíamos descrever como «infernais» e que antecedem a chegada da festa.

E assim foi: neste dia 26, além da merecida manhã de sono, ir ao cinema ver o tão antecipado «Star wars» parecia ser o último presente deste Natal; e o embrulho prometia: as letras em fuga pelo ecrã como estrada para o filme, a panorâmica descendente no céu estrelado que revela um planeta, uma nave grande, várias naves pequenas, e estamos no filme, num mundo que reconhecemos.

Este salto para o futuro remete-me para o passado. O primeiro «Star wars», vi-o não no cinema mas no salão paroquial da igreja do meu bairro. Foi há muito tempo e não sei por que milagre foi possível ver o filme naquele espaço de bastidores da igreja, ainda que a quadra não fosse a natalícia e que nada para além do relato entusiasmado dalguns colegas de escola que já o tinham visto me preparasse para aquela aventura.

Saí desse filme, em 1977, com a sensação de ter estado num mundo novo, mas ontem, dia 26 de Dezembro de 2015, saí deste filme com a sensação de revisitar um mundo que já conhecia.

A quente, sem pensar muito no assunto, parece-me que este é o maior reparo que posso fazer ao Episódio VII. Afinal, foi-nos prometido um regresso em força da saga «Star wars», com produção Disney, J.J. Abrams a realizar, o argumento em co-autoria com o grande Lawrence Kasdan. O filme sabe bem, mas não nos dá os novos mundos que promete, ou, melhor dizendo, uma realidade que ainda não conhecíamos e que a máquina de marketing Disney antecipou.

Talvez seja pedir demais; uma coisa é ver um filme destes com sete ou oito anos de idade, outra é querer repetir o espanto aos quarenta. Mas, voltando a insistir, será impossível? Filmes como «Tree of life» (Mallick, 2011) e «Interstellar» (Nolan, 2014) deram-nos realidades novas, diferentes, «Star wars» podia ter ido nessa direcção, cortando com o passado, como o Batman de Nolan fez em 2008 («The dark knight»). Mas Abrams não é Nolan e a Disney não é a Warner.

Depois, há as citações, as homenagens a filmes passados, como a evocação da cena do compactador de lixo, o bar povoado de personagens surpreendentes e potencialmente perigosas, uma luta num passadiço elevado. Há também as transições que reconhecemos de filmes anteriores, wipes, iris e outras soluções berrantes para passar dumas cenas para outras, tão ao estilo de George Lucas. Por fim, o peso da genealogia, própria duma saga, é certo, mas que aqui não se liberta da inevitável «explicação» — penosa porque necessária — de saber quem é quem na família sobre a qual recai o equilíbrio entre o Bem e o Mal, a aristocracia galáctica, a realeza que tanto seduz o público americano.

Neste episódio VII, o público vê aquilo de que gosta, mas podia ter visto muito mais. É um filme para miúdos e não consegue ser (nem quer ser) um filme para miúdos mais velhos. Ainda assim, porque em qualquer blockbuster costuma ser mais fácil detectar defeitos do que coisas bem feitas e dizer mais mal do que bem, talvez seja devido um texto sobre os aspectos positivos deste Episódio VII, a publicar daqui a 15 dias. Talvez.

Até lá, votos de um excelente 2016.

E sim, claro que vale a pena ir ver. É o mínimo que podemos fazer por nós, depois dum Natal infernal…

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