Por Gustavo Martins-Coelho [a]

Uma equipa de cientistas franceses avaliou o nosso «nível trófico» — ou seja, a nossa localização na cadeia alimentar. O nível trófico resume a composição da dieta da espécie a que diz respeito e permite perceber o impacto de cada espécie sobre os recursos alimentares do planeta. É calculado da forma seguinte: no nível 1, estão as plantas; um herbívoro tem o nível 2; uma espécie cuja dieta é 50 % ervas e 50 % carne de vaca tem um nível trófico de 2,5 — a média dos níveis tróficos de cada um dos componentes da sua dieta (1,5) mais 1 (por se encontrar um degrau acima de herbívoros). Os maiores predadores podem ultrapassar o nível trófico 5.

O nível trófico da espécie humana é 2,21. Ao contrário do que se poderia pensar, os seres humanos não são predadores de topo. Porém, isso não significa que o nosso impacto no ecossistema seja modesto: somos tantos, que isso nos conduz a um consumo considerável dos recursos naturais, para além dos outros impactos (poluição, alteração dos habitats, etc.). No total, os humanos apropriam-se, através da produção de alimentos e do uso dos solos, de 25 % da capacidade do planeta para produzir biomassa.

Nem todas as partes do mundo são iguais: a Europa do Sul tem níveis que, nos anos sessenta do século XX, rondavam os 2,3, mas têm vindo a aumentar; na Europa do Norte, os níveis rondaram os 2,4 até 1990 e, a seguir, começaram a diminuir (na sequência de políticas destinadas a promover dietas mais saudáveis, devido às consequências nefastas para a saúde do excessivo consumo de carne e de gordura animal).

O nível trófico de Portugal passou de pouco mais de 2,3 nos anos sessenta do século XX, para acima de 2,4 em 2009 (apesar duma nítida quebra, no final dos anos 1970, quando do primeiro pedido de assistência financeira ao FMI).

Em termos globais, o nível trófico humano aumentou 3 % em cinquenta anos, implicando um impacto ambiental cada vez maior. Isso levanta a questão de saber qual o nível trófico a não ultrapassar para conseguirmos gerir os recursos alimentares de forma sustentável. Os estudos dos nutricionistas mostram que estamos a convergir para uma dieta que contém cerca de 35 % de nutrientes de origem animal (carne, gordura, peixe). Isso traduzir-se-ia num nível trófico próximo dos 2,4. Ora, precisamente acima deste último valor, a esperança de vida diminui, devido às doenças causadas por uma alimentação demasiado rica em gorduras e proteínas animais. Talvez seja esse, de facto, o limite a não ultrapassar, em caso algum.


Nota:

a: Este artigo é um resumo do texto original, publicado no jornal «Público» [1].

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