Por Gustavo Martins-Coelho

As baixas expectativas são a melhor forma de permitir às coisas correrem bem. O primeiro contacto com ela, digno desse nome, teve lugar no final da primeira semana do estágio. Provavelmente, já nos teríamos cruzado pelos corredores, antes disso. É inevitável que tal tenha acontecido. Mas escapou-me à constatação. De certeza, só aquela Sexta-feira à tarde. Lembro-me perfeitamente — como se tudo tivesse acontecido ontem.

Nunca percebi o que fazíamos ali. Nesse primeiro dia nosso, ela viu-me como um simples simplório simpático, que não tem mais com que ocupar os dias do que passar doze horas fechado num gabinete, quando podia estar a aproveitar a vida que passava lá fora. E, no entanto, foi aí, nesse gabinete quase às escuras, que, ao fim de doze horas de hibernação, brotou o primeiro talo de vida.

Sinto que ela ainda me via como uma criança, só porque fizemos caminhos diferentes e estávamos em fases diferentes da vida. Talvez ainda hoje, tanto tempo depois, ainda me veja como uma criança. É verdade que continuamos em fases diferentes da vida. Mas ela esquece, porventura, que somos iguais e que talvez — só talvez, porque, nestas alturas, sempre me falham as certezas — eu até tenha mais primaveras do que ela.

Não sabendo o que fui para ela… Não sabendo o que sou para ela… Não sabendo se ainda sou — existo para ela!… Torna-se-me difícil assumir a postura e o registo certos. Talvez não haja, sequer, um registo certo. Vendo bem, qualquer opção que possa tomar é errada. Possivelmente, este é apenas mais um erro, destinado a corrigir outro erro, num interminável novelo de erros e de mal-entendidos, que vou dobando, sem saber tricotar. Mas, como diria o Jack, o Estripador:

— Vamos por partes — e sem falsa modéstia.

Sei que sou um homem cheio de qualidades. Ela limitou-se a ser a enésima a dizê-lo e nem sequer foi a última.

— Tu tens imensas qualidades — é uma frase que estou sempre a ouvir, ou suas variações. Se calhar, é mentira, mas, mesmo que o seja, é uma mentira já tantas vezes repetida, por tantas mulheres (e alguns homens) diferentes, que, como todas as mentiras ad nauseam proferidas, se tornou verdade.

Sou um homem cheio de qualidades, mas nenhuma qualidade é suficiente para todas as vozes que se ergueram em uníssono, murmurando:

— És um homem com imensas qualidades.

Ela fez-me sentir a necessidade de lhe fazer ver isso directamente, ao mesmo tempo que fazia nascer o que terminou prematuramente. Eu, de quem diziam, há anos, ser uma pessoa humilde!

Ela retirou-me a humildade, num repente! Isso magoa — quase tanto como perceber que são essas mesmas qualidades que se tornam empecilhos, no momento em que mais falta fazem.

Já sei que sou um homem cheio de qualidades! Basta de mo lembrar! Sei mesmo que tenho as qualidades que uma mulher procura… Mas uma mulher precisa de procurar, sem encontrar. No dia em que encontra, esvai-se a sua razão de existir. Então, tem de voltar a esconder, para poder continuar a procurar e a existir. E, enquanto ela procura, eu perco-a. Isso também magoa. Magoa por não poder ser. Mas magoa ainda mais olhar e vê-la a procurar o que já encontrou, sabendo que não quer pegar, porque pegar é largar. E dói como uma lâmina fria a trespassar a carne mais sensível vê-la pegar no que não quer encontrar, para não ter de encontrar o que não quer pegar.

Isso faz dela má pessoa? Faz dela uma pessoa normal, sem dúvida. Mas eu também nunca disse que ela era boa pessoa. Nunca parei para pensar nisso, na verdade. E de que me serviria constatar que ela é má pessoa? Os adjectivos são gavetinhas onde penduramos coisas. A mim, basta que ela seja uma pessoa. Boa ou má. Boa — e — má. Se pensarmos bem, eu também nunca disse que sou boa pessoa. Gostaria de ser, porém, não sei se me esforço o suficiente por sê-lo — nem se vale a pena o esforço. O que ganham as boas pessoas por sê-lo? Pouco importa. Ser boa pessoa só para ganhar alguma coisa com isso não é ser boa pessoa.

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