Por Gustavo Martins-Coelho [a]

Às vezes, fazem-nos sentir que é ingénuo confiarmos. As canções aconselham o contrário, a televisão conta histórias de burlas e as notícias dos escândalos financeiros relembram-nos de não confiar nos bancos. Mas isso não significa que devamos deixar de tentar construir uma sociedade com mais confiança, pois ela faz contratos, planos e transacções, facilita a democracia e é fundamental à estabilidade social e às nossas vidas. É a confiança — não o dinheiro — que faz girar o mundo. Apesar de não ser incluído nas contas do défice, o investimento em confiança é tão importante como o investimento em capital.

Infelizmente, a confiança é mais uma vítima da desigualdade. Quanto mais o fosso entre ricos e pobres alarga, mais os laços que unem a sociedade enfraquecem.

O desprezo pela confiança deriva das tradições económicas mais populares: que é melhor cada um procurar satisfazer o seu interesse individual, do que confiar nas boas intenções de quem diz perseguir o interesse geral. Se cada um cuidar de si, atingiremos um equilíbrio confortável, produtivo e eficiente: o egoísmo como a forma última de altruísmo. Mas os acontecimentos e a investigação económica dos últimos trinta anos demonstraram que nenhuma economia pode funcionar sem um pouco de confiança — e que o egoísmo sem limites a diminui.

Os bancos, por exemplo, sempre se basearam na confiança de que o dinheiro que lá depositamos estará disponível, quando precisarmos dele. No máximo, seria emprestado a pequenos negócios e compradores de casa, com toda a segurança. Porém, nos anos antes da crise, os bancos violaram essa confiança, investindo em actividades agressivas e emprestando, sabendo de antemão que não havia possibilidade de reembolso, confiando (ironicamente) em derivados e seguros, em caso de não pagamento — e acreditando que, ao procurarem engordar as suas carteiras, estavam a aumentar o bem-estar social.

Sabemos agora que isto era uma miragem, mas as consequências foram uma cascata de destruição de confiança. Como cada banco sabia as manigâncias que fizera, nenhum banco confiava noutro banco e os empréstimos interbancários praticamente congelaram, colocando o sistema financeiro à beira do colapso, do qual foi salvo pela acção dos contribuintes, cuja confiança foi a mais abusada de todas.

Tinha havido outras situações (a mais notável das quais em 1929), em que a confiança fora abalada, levando à introdução de regulação destinada a impedir abusos. Nós confiávamos nos reguladores e nos fiscais; e confiávamos que não só os bancos obedeceriam à lei, fosse pela sua honestidade intrínseca, fosse pelo medo das penalizações, em caso de desobediência. Décadas mais tarde, contudo, os banqueiros usaram a sua influência política para se verem livres da regulação e nós confiámos que eles saberiam auto-regular-se. Foi um erro: estava criado um sistema de incentivos, que premiava os benefícios de curto prazo e o risco excessivo, e uma era em que os valores morais eram olhados de lado.

O exemplo dos bancos é um de muitos, duma agenda de direita, que procura minar o papel da confiança na sociedade, pretendendo substituí-la por incentivos. Os gestores recebem acções das suas empresas, para darem o seu melhor. Já não conta o facto de serem bem pagos; apenas dão o seu melhor, se lhes for prometido um pedaço da empresa, mesmo que seja ganho à custa da inflação artificial do seu valor numa bolha. Os professores recebem incentivos para aumentarem o sucesso dos seus alunos, mesmo que à custa do facilitismo. Não seria melhor reconhecer o elevado papel social do seu trabalho, confiar no seu profissionalismo e remunerá-los em conformidade? Claro que, para os advogados dos incentivos, aumentar salários seria dar alguma coisa em troca de nada.

Na prática, a estratégia de incentivos da direita tem-se demonstrado prejudicial ao pensamento a longo prazo e cheia de oportunidades de ganância, que abalam a confiança. Os gestores procuram formas de contabilidade criativa, de forma a parecerem bem a curto prazo, mesmo que isso comprometa as perspectivas de longo prazo.

Isto não exclui o papel dos incentivos no comportamento humano. Mas os incentivos não podem ser uma religião cega a todos os outros factores — sociais, morais, etc. — que influenciam a nossa conduta. Aliás, é mais do que cegueira: é inverosímil. É impossível pagar a confiança. Sem ela, a vida seria absurdamente cara, a informação inatingível, a fraude incontrolável e os custos legais e comerciais impraticáveis. A sociedade congelaria, tal como os empréstimos interbancários em 2007.

Quanto à desigualdade, quando 1 % da população arrecada quase metade da riqueza mundial e quando este valor continua a crescer, qualquer pessoa razoável percebe que algo está mal. Mas, para que uma sociedade funcione, as pessoas têm de confiar na justiça do sistema. Essa confiança é recíproca. Se as pessoas se sentirem enganadas, tenderão com maior probabilidade e enganar. Quando os cidadãos dum país vêem um sistema fiscal que cobra menos impostos aos ricos do que à classe média e onde os primeiros podem facilmente deslocar os seus lucros para outro local, sem quebrar a lei, esses cidadãos percebem que os sistemas financeiro e legal foram desenhados pelos ricos, para os ricos.

Sem confiança, as normas sociais mudam. O conceito de justiça é destruído. A desigualdade política, a económica e a legal reforçam-se mutuamente. Os banqueiros não foram punidos. Mas os pobres que não puderam pagar as suas hipotecas foram despejados. E, se não fosse o Estado, teriam sido os accionistas — nunca os gestores — a arcar com os prejuízos da crise. A igualdade perante a lei foi gravemente atacada.

Existe apenas uma forma de reconquistarmos a confiança: regular apertadamente, fiscalizar intensamente e punir severamente. Sabemos que as regras não são suficientes para evitar todos os abusos, mas sê-lo-ão certamente para prevenir os piores.

Os valores são o que nos permite viver em harmonia uns com os outros. Sem confiança, não pode haver harmonia, nem uma economia forte. A desigualdade está a degradar a confiança. É altura de começarmos a reconstruí-la.


Nota:

a: Este artigo é um resumo do texto original, publicado no jornal «The New York times» [1].

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