Por Gustavo Martins-Coelho [a]

Já lhe ocorreu negociar com o piloto o preço do voo em que acabou de embarcar? E, se ele aceitasse ofertas, saberia quanto oferecer? A negociação atrasaria o voo? E qual seria o risco de ter um piloto mais preocupado em obter um bom preço pelo seu serviço, do que em fazer toda a gente chegar em segurança ao destino?

É absurdo, não é? O mesmo acontece com os médicos. Mas há quem proponha tal ideia, porque a competição vai fazer baixar os preços dos cuidados de saúde, magicamente. Não. Precisamos duma coisa simples e com resultados demonstrados.

Para começar, o mercado pode fazer os preços baixar ou subir. Olhe-se para a energia. Depois, há o componente de conhecimento do mercado. Quando um lado sabe e o outro é ignorante, há exploração de preços. Telefonar a todos os hospitais a perguntar o preço duma cirurgia de vesícula não parece muito viável. Além disso, quantos doentes têm um conhecimento razoável dos procedimentos médicos, dos seus custos, ou sequer da diferença entre um neurologista e um nefrologista? Uma vítima de acidente, com dores e a esvair-se em sangue, está em condições de tomar uma decisão informada, livre de coerção? Quantos doentes sabem calcular o preço duma ressonância, duma angiografia ou duma dúzia de pontos, ou qual a melhor alternativa, ou sequer se o procedimento é necessário?

Não existe um mercado livre na saúde. Se houvesse, o preço dos cuidados variaria pouco. Uma carrinha Ford custa praticamente o mesmo no mundo inteiro. Não é assim com os cuidados de saúde. Nos EUA, um dia de internamento pode custar menos de $1.500 ou mais de $12.500. Uma apendicectomia vai de $8.156 a $29.426. Os economistas aprendem na faculdade que isto é um sinal de mercado ineficiente, ou falso mercado.

Além disso, os preços do «mercado» americano são diferentes dos do resto do mundo. Em França, um dia de internamento custa $853; nos EUA, $4.287. Uma ressonância magnética custa $335 no Reino Unido e $363 em França, mas $1.121 nos EUA. Um parto custa $2.641 no Reino Unido e $3.541 em França, mas $9.775 nos EUA. Se for por cesariana, custa $4.435 no Reino Unido e $6.441 em França, mas $15.041 nos EUA. Estes custos excessivos esvaziam os cofres públicos e as carteiras privadas, aumentam os custos das empresas e forçam os patrões a retirar a sua atenção da gestão das empresas para a negociação dos seguros de saúde.

O sistema público Medicare, para os norte-americanos com mais de 65 anos, tem menos custos do que o sistema privado que serve as pessoas com menos de 65 anos. Dos 34 países da OCDE, os EUA têm o sistema de saúde mais caro e é o único que não fornece cobertura universal.

Mas, mesmo que assim não fosse, nem tudo pode ser julgado em termos de preço. O amor e a afeição da família e dos amigos, a lealdade dos diplomatas e a integridade dos fabricantes e dos pilotos de aviões não são matéria para a economia de mercado.

Poderíamos experimentar a liberalização dos cuidados de saúde. Até poderia funcionar, surpreendentemente. Mas porquê? Nós já sabemos que um sistema de saúde universal, geral e gratuito é muito mais barato do que o preço que os norte-americanos pagam pelo seu sistema privado; e sabemos que a qualidade do sistema americano é a 37.ª do mundo.


Nota:

a: Este artigo é um resumo do texto original, publicado na revista «Newsweek» [1].

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