Por Hélder Oliveira Coelho

A caixa estava fechada. E todos se indagavam sobre a caixa. Ao longo dos tempos, as caixas têm preenchido o imaginário comum. Recuemos ao tempo de Pandora e avancemos até ao gato. Também Schrödinger fechou o paradoxo na caixa. As caixas, por vezes, são pequenas; por vezes, grandes. Há quem não goste da sua caixa; há quem aprenda a viver com ela; há os que a amam incondicionalmente. Há os que a não mostram a ninguém e os que a exibem. Há os que vivem em caixa alheia, os que têm muitas e os que, tendo uma, se recusam a abandoná-la. Há os que nunca tiveram caixa, mas agem como tivessem. Há os que encerram caixas de diferentes tamanhos dentro doutras — as caixas matriosca — dentro de cada se encontra outra, mas o verdadeiro conteúdo é pequeno e escondido na última. Há quem queira arrumar o mundo numa só caixa, há quem o queira dividir em muitas. Assim se vai organizando a existência.

Contudo, a caixa estava fechada e todos se indagavam sobre a caixa. Se o que há de palpável pode ser guardado em algo inerte e vazio, a caixa será o suporte para agrupar iguais. Não obstante, o vazio não ocupa lugar, por definição. Assim, mesmo a caixa que parece nada ter pode transbordar do que não se vê. Se a enchermos de areia, pode parecer que temos muito, mas será apenas areia. Se a enchermos de emoções, decerto será mais leve, mas muito mais valiosa. As caixas vão-se acumulando na vida. Outras — a vida vai passando por elas e nem repara que elas ali estão. Se a caixa guardar uma jóia, quem a tiver achar-se-á poderoso. Se a caixa guardar uma memória feliz, quem a tiver será poderoso. O ouro que possa caber na caixa trará com ele tudo o que o ouro possa comprar. Já o saber que se mantenha na caixa não pode ser vendido, mas é garantido que a caixa se abra para que tenha o devido valor.

A caixa estava fechada. E todos se indagavam sobre a caixa. Os que conseguem ver para lá das caixas estão em grande vantagem. Também eles têm as suas caixas. Também eles as abrem e fecham, as expõem ou escondem.

Em época de Natal, as caixas envolvem-se em papéis lustrosos e laços luzidios. O que elas contêm pouco importa. São os lustres e as luzes que contam. Cada vez mais, não valem as caixas, nem tão pouco vale o que nelas se arruma ou guarda. Valem os brilhos com que se revestem. Ora, o que nos diz o tempo a respeito do brilho da caixa? Nada! A de Pandora tinha algo dentro e a do gato tinha o próprio gato e mais o que em torno dele se significa. Quando a caixa não vale e o que tem dentro não importa, perde-se muito do sentido da sua existência. Quando o conteúdo é fraco, a caixa, só por si, não salva a honra. Entre a dialéctica que se estabelece entre a caixa e o que nela está falta um elemento conciliador — a vontade. A caixa e o seu conteúdo dependem visceralmente da vontade de quem a tem. Cada indivíduo contribui em larga escala para a sua caixa.

E a caixa que estava fechada tinha um anjo! O anjo que, dentro ou fora da caixa, anuncia a esperança. O anjo Gabriel trouxe a mensagem de Boa Nova. Vai nascer o Salvador. E salvaram-se todos na mensagem do Anjo. A mensagem de partilha, de respeito, de caridade, de perdão, mas, acima de tudo, a mensagem de amor. Os anjos guardam e anunciam o amor. Nas pequenas coisas, como nas grandes, deve ser o amor a ditar o rumo. O amor a encher a caixa, o amor a embrulhar a caixa, o amor a construir as paredes da caixa! Os homens sábios conhecem o significado disso; e dentro da caixa trazem anjos!

Deixo-vos com um excerto da obra de Rachmaninov: Variações sobre um tema de Paganini [1].

Um 2016 com muito amor, dentro ou fora da caixa.

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