Por Gustavo Martins-Coelho [a]

Após a grande recessão de 2008, vinte vezes mais britânicos acorrem às cantinas sociais, os níveis de pobreza em Itália atingiram máximos de 1997 [2], o número de espanhóis atendidos pela Cáritas subiu de 370.000 para 1,3 milhões [3] e, na Grécia, regressaram a malária e a peste.

A pobreza é uma abstracção, menos para os que dela sofrem. Os sintomas de empobrecimento colectivo e de desigualdade crescente estão por toda a parte. O esforço de combate à desigualdade, entre a grande depressão e os anos setenta do século passado foi, desde então, lentamente atirado borda fora e a actual crise apenas agudizou a desigualdade.

A estatística é avassaladora: a desigualdade aumentou nos anos oitenta, reduziu-se nos noventa e voltou a aumentar na primeira década destes século, atingindo valores superiores a 1970. Os países mais desiguais da Europa são os bálticos, os latinos, a Europa de Leste e os anglo-saxónicos. Os menos desiguais são os do centro da Europa. Os 20 % mais ricos da Europa ganham cinco vezes mais do que os 20 % mais pobres; e a diferença continua a aumentar, embora permaneça abaixo da dos EUA e dos países emergentes.

Há várias razões para a desigualdade na Europa. Nas economias com crescimento reduzido ou nulo, os efeitos redistributivos do sistema fiscal e do Estado-providência são menores. A crise causou a redução de prestações sociais e dificultou o acesso à educação. A globalização, a financeirização da economia e engenharia fiscal agudizaram essa tendência. E as instituições políticas europeias não funcionam, nem têm instrumentos para lutar contra a desigualdade.

A desigualdade é corrosiva: corrói o contrato social europeu e pode acabar desencadeando problemas sociais. Foi o caso dos protestos na Grécia, em Portugal e em Espanha, insuficientes para concentrar capital político, mas sinal de que, se a alternância política continuar a ser decorativa e nada mudar em Bruxelas ou Francoforte, a pressão derivada da desigualdade seja despejada no populismo e no extremismo, que atacarão os suspeitos do costume — imigração, corrupção, instituições democráticas — e deixarão de fora as verdadeiras reformas: fiscais e de cooperação.

Qualquer recessão eleva os níveis de desigualdade: são os pobres quem perde primeiro o emprego. Por isso se inventaram as políticas contracíclicas, que a Europa pretende agora desmontar, com a austeridade, com qual se purgam os pecados do passado, ao mesmo tempo que corta salários, pensões e o Estado-providência e vê aumentar o desemprego. A Europa abandonou o keynesianismo e abraçou um projecto neoliberal puro, elitista, socialmente insensível, que promove uma nova estratificação social, com gente com muito dinheiro, que ganha um enorme poder, a ponto de poder colocar em causa a democracia.

A situação ainda não é desesperada. São precisos políticos dispostos a inverter a marcha e a reintroduzir políticas redistributivas; e eleitorados dispostos a apoiá-los.


Nota:

a: Este artigo é um resumo do texto original, publicado no jornal «El País» [1].

Anúncios