Por Gustavo Martins-Coelho [a]

Todas as comunidades humanas se construíram sobre identidades definidas através de símbolos. Mas esses símbolos nem sempre são partilhados. O poeta Luís de Camões pode ser um símbolo de Portugal, mas continua a ser irrelevante para os analfabetos. Já a Amália e o Eusébio foram nacionalizados, tornando-se símbolos muito para além do seu mérito próprio.

O Eusébio era um herói com o qual os portugueses de vida pobre e dura podiam empatizar: quando a maioria da população nem sequer sabia ler, o futebol começou a ser divulgado pela rádio; quando se trabalhava seis dias por semana (como hoje volta a suceder), o Domingo deixava de ser o dia do Senhor e passara a ser o dia do jogo. Com a chegada da televisão, reuniam-se grupos no café, para ver o futebol. Sem a rádio ou a televisão, o Eusébio e a Amália dificilmente seriam símbolos nacionais. Os dois são dos produtos mais bem sucedidos da cultura de massas portuguesa.

Além disso, o Eusébio chegou a Portugal dois meses antes do início da Guerra Colonial, pelo que foi aproveitado pela ditadura para «defender por todas as formas o mito do pluri-racialismo lusófono» [2], da «igualdade de oportunidades» [2] e da «ausência de preconceito racial» [2]. O Eusébio era um símbolo de sucesso para milhões de portugueses obrigados a ir para a guerra em África, a emigrar, ou a migrar de todo o país para Lisboa. Nas bidonvilles francesas, os imigrantes portugueses, sujeitos à desgraça universal do desprezo pelo imigrante ilegal, resgatavam a sua dignidade pelos triunfos do futebol que o Eusébio proporcionava. Ainda hoje, o futebol oferece Cristianos Ronaldos e Mourinhos como «exemplo» para milhões de desempregados, precários, novos (e muitos) emigrantes, todos eles desiludidos com um país devastado, que lhes diz todos os dias que estão a mais.

O Eusébio foi um herói adequado a um país trágico, feito de guerra, de desenraizamento e de saudade. Salvo a guerra, voltámos ao mesmo.


Nota:

a: Este artigo é um resumo do artigo original do Manuel Loff, publicado no jornal «Público» [1].

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