Por Gustavo Martins-Coelho [a]

O jovem Calimero é uma figura de relevo em Portugal. Em entrevistas e reportagens, diz que o País não lhe deu as oportunidades que merecia. Chora, porque vai ter de deixar para trás os pais, os amigalhaços do peito, o Citroën, o gato Xoné e a vidinha que por cá fazia; e, quando chega ao estrangeiro, aproveita para ulular que lá é que é bom e que voltar cá — só em férias.

Não sou amigo destes Calimeros. Prefiro dar-me com os emigrantes que decidiram partir, porque acharam que, apesar de não estarem mal, podiam estar melhor e serem ainda melhores.

Já o emigrante Calimero, com vinte e poucos anos, uma licenciatura de Bolonha e militância activa na geração Lol, acredita que tudo na vida é fácil e instantâneo, incluindo o emprego, de preferência perto de casa, bem pago e de acordo com o que aprendeu na faculdade. Mas esquece-se de que a boa vida tem de ser paga com bom trabalho, o qual nem sempre é o que queremos, mas o que há.

Esta choradeira é alimentada pela história de que o País investiu milhões a formar a melhor geração de sempre, apenas para a enxotar. O que os Calimeros esquecem é que o País não tem de concretizar os sonhos destes imberbes a todo o custo e que o curso que eles tiraram é irrelevante, se não tiver procura.

É importante que alguém explique a estes recém-licenciados que uma licenciatura é uma licença para desempenhar uma função, não o direito a desempenhá-la — muito menos à porta da casa dos papás! Quando existem quase 1,5 milhões de licenciados é inevitável que alguns caixas de supermercado, empregadas da limpeza ou empregados de balcão sejam licenciados. Alguns vão ter de fazer o que tem de ser feito e não o que gostariam de fazer.

Estes Calimeros têm duas opções: ou ficam, acordam para vida e se adaptam; ou vão sonhar para países onde as suas valências sejam sustentadas por quem consuma e lhes pague o mundo onde querem viver.

Mas sem choros, por favor. É que já ninguém os pode ouvir.


Nota:

a: Este artigo é um resumo do texto original do Nuno Ferreira, publicado na revista «P3» [1].

Anúncios