Por Gustavo Martins-Coelho

Não posso limitar a minha intervenção opinativa neste espaço [1] a criticar o Partido Socialista [2], ou ainda acabo expulso [3], de modo que começo o ano com um tema totalmente diferente — e que decerto me redime das críticas ao Partido, além de me confirmar como perigoso esquerdista [4].

Quero falar da «Terça-feira dos gatos gordos». Não sabe o leitor de que se trata? Eu explico.

De acordo com o High Pay Centre [5], uma sociedade britânica independente que examina a governança das empresas e o rendimento dos elementos do topo da escala de distribuição dos rendimentos, ontem foi o dia em que o ordenado dos patrões do cimo da escala ultrapassou o salário mediano anual dum trabalhador a tempo inteiro no Reino Unido [6]. Ou seja, ao fim dos primeiros cinco dias do ano, os gestores com os salários mais altos já ganharam mais do que o trabalhador britânico médio vai ganhar até ao fim do ano.

O salário mediano anual no Reino Unido é de € 36.628,86, enquanto os executivos principais das empresas do FTSE 100 [7] ganham uma média anual de € 6,57 milhões. Mesmo que assumamos que os executivos trabalham muito mais horas do que um trabalhador que cumpre o seu horário e goza os seus fins-de-semana e férias (digamos que o executivo trabalha doze horas por dia, só goza um fim-de-semana por mês e tira dez dias de férias no ano), o preço da hora cifra-se nos € 1.669,46, bastando, portanto, 22 horas de trabalho para ultrapassar a média de € 36.638,86. Se assumirmos que os executivos gozaram a passagem de ano e o fim-de-semana, e começaram a trabalhar no dia 4, então, ontem à tarde, tinham atingido esse limiar.

Só não vê quem não quer que há aqui uma gritante injustiça! Digam o que disserem os arautos do neoliberalismo sobre o mérito e a igualdade de oportunidades, tudo se resume a isto: os gatos gordos não fazem em cinco dias o mesmo que uma pessoa normal demora um ano a fazer; os executivos de topo não são 179 [a] vezes mais produtivos, inteligentes e meritórios do que a média dos trabalhadores britânicos; as suas tarefas não são 73 [b] vezes mais complexas ou difíceis de executar do que as dum trabalhador comum.

Existe variabilidade biológica, que pode explicar a forma como pessoas diferentes aproveitam as oportunidades com que se deparam. Existem diferenças na literacia e nas competências adquiridas através da formação, que podem explicar a diferente produtividade dos diversos trabalhadores. Existem tarefas de execução mais complexa, de maior responsabilidade e com consequências de maior alcance. Existe até a oferta e a procura, no mercado de trabalho. Por tudo isto, é natural — benéfico até — que existam diferenças na remuneração entre diversos profissionais (até mesmo para trabalho igual, pois uns fazem-no melhor do que outros). Mas não tanto!

Mais: os prémios de desempenho dos presidentes dos conselhos de administração das empresas do FTSE 100 [7] subiram, em média, 50 %, em comparação com o ano anterior, enquanto o salário mediano anual aumentou apenas € 590.

Por esta evolução, que, de ano para ano, agrava a desigualdade, está visto que os governos não vão (não querem) mudar o estado de coisas. Numa sociedade anónima, dificilmente os accionistas conseguem vetar os incentivos estratosféricos pagos aos gestores de topo. É, pois, preciso encontrar novas formas de rever a distribuição do rendimento. A este propósito, e High Pay Centre [5] sugere [6], por exemplo, a inclusão dos trabalhadores em comités com poder decisório sobre os níveis salariais dos gestores, ou a publicação, por cada empresa, da diferença entre o salário mais alto e médio. Mas não creio que seja por aí o caminho.

Em relação à segunda medida, a razão das minhas dúvidas é simples: sabemos hoje que os ricos são mais propensos a adoptar comportamentos pouco éticos [8] e a atribuir a razão do seu sucesso a factores intrínsecos [9, 10], em detrimento do contexto ou mesmo da sorte [11], pelo que a publicação das diferenças salariais pouco embaraçará os gestores, que continuarão a considerar os seus chorudos prémios merecidos.

Quanto à primeira medida, é uma possibilidade que precisa de ser bem ponderada, visto que a atribuição aos trabalhadores do direito a definir (mesmo que partilhando o poder decisório com outros parceiros) a remuneração dos gestores é, lato sensu, inverter o actual estado de coisas — em que o gestor define a política salarial da empresa. Esta medida pode ser uma forma de introduzir um factor de equilíbrio de poder no sistema, mas corre o risco de degenerar num desequilíbrio de sentido oposto, não muito diferente dos saneamentos acontecidos no rescaldo do 25 de Abril, nas empresas portuguesas, escapando ao controlo e deturpando a intenção inicial.


Notas:

a: Este número resulta da divisão do salário dos executivos das empresas cotadas no FTSE 100 [7] pelo salário mediano anual britânico.

b: Este número resulta da divisão dos 365 dias que uma pessoa normal tem num ano pelos cinco dias que decorrem até à «Terça-feira dos gatos gordos».

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