Por Gustavo Martins-Coelho

São curiosas, as coincidências… Tinha decidido começar este ano por falar de antibióticos e, entretanto, fiquei constipado — a situação oportuna para o que tinha em mente!

Antes de mais, quero desejar um bom 2016. O início dum novo ano é aquela altura das nossas vidas em que fazemos um balanço e tomamos decisões para o futuro, muitas das quais — talvez fosse mais apropriado dizer a maioria das quais — acabamos por não cumprir, verdade seja dita… Este ano, quero sugerir uma resolução de ano novo: evitar os antibióticos.

Antes que digam que anda por aí um médico a recomendar que não se tomem antibióticos, deixem-me explicar: nós consumimos muitos — demasiados — antibióticos. Em 2013, o Eurobarómetro fez um estudo [1] sobre o assunto e chegou à conclusão de que quase quatro em cada dez Portugueses tinham tomado, no ano anterior a esse estudo, pelo menos, um antibiótico em forma oral, o que nos coloca ligeiramente acima da média europeia. Não é trágico, quando comparado com os restantes europeus, dirão. Pois, mas, enquanto o consumo de antibióticos na Europa está a decrescer, em Portugal está a aumentar (foi o segundo país europeu onde mais aumentou, entre 2009 e 2013). E, além disso, quem disse que os Europeus, no seu todo, também não consomem antibióticos a mais?…

Para responder a esta pergunta, comecemos, então, pelo princípio: o que é um antibiótico? Os antibióticos são substâncias, naturais ou sintéticas, que destroem as bactérias, ou impedem o seu crescimento. O primeiro antibiótico — a penicilina — foi descoberto nos anos quarenta do século XX. Desde então, os antibióticos têm sido usados no tratamento de múltiplas doenças infecciosas, tanto nas pessoas como nos animais, como desinfectantes, conservantes e profilácticos, tendo tido também um papel na prevenção das complicações cirúrgicas.

Infelizmente, porém, os antibióticos estão a perder eficácia, devido ao aparecimento de bactérias capazes de lhes resistir. Este é um processo natural, que resulta da selecção dos micróbios resistentes exactamente da mesma forma que Charles Darwin descreveu a acção da selecção natural, mas é um processo que está a ser acelerado pelo uso inapropriado de antibióticos na medicina e na medicina veterinária. O aparecimento de bactérias resistentes é um problema de saúde pública global. É responsável pela morte de pessoas que, doutra forma, poderiam ter sobrevivido; pelo aumento dos custos dos cuidados de saúde e da produção pecuária; e por perdas na produtividade desta indústria. E é por isso que é tão importante que façamos um uso judicioso dos antibióticos.

Bom, mas voltemos à questão: como sabemos que andamos a tomar antibióticos a mais? Por causa dos motivos que referimos no estudo do Eurobarómetro para tomar antibióticos: as cinco principais razões para tomar antibióticos listadas pelos Portugueses foram a gripe, a bronquite, a constipação, a garganta inflamada e as infecções urinárias. Destes, a gripe e a constipação nunca requerem antibióticos para o seu tratamento; os restantes podem requerer ou não, dependendo das circunstâncias. Ou seja, pelo menos um terço dos Portugueses que tomaram antibióticos, segundo o estudo do Eurobarómetro, não precisavam de tê-los tomado.

Além disso, temos outro problema: 5 % dos portugueses inquiridos admitiram tomar antibióticos por iniciativa própria — fosse porque ainda tinham sobras em casa, fosse porque conseguiram adquirir uma caixa na farmácia sem uma receita médica (convém, talvez esclarecer, neste ponto, que a venda de antibióticos sem receita médica é ilegal)! Mas, mesmo aqueles que tomaram as sobras — em princípio, não deveriam ter sobras, porque as caixas dos antibióticos são, salvo muito raras excepções, para tomar sempre até ao fim.

Portanto, resumindo:

  • Os antibióticos só são eficazes contra bactérias. Como a gripe e a constipação são causadas por vírus, os antibióticos não ajudam a melhorar mais depressa e podem ter efeitos secundários; não há, portanto, vantagem alguma em usá-los nessas situações.

  • Os antibióticos só podem ser tomados após um médico os receitar e da forma que este aconselhar, incluindo no que diz respeito à duração do tratamento.

  • Os antibióticos não são para guardar em casa, mesmo que sobrem na caixa, depois de fazer o tratamento que o médico receitou. Nesse caso, devem ser levados à farmácia, para serem destruídos.

Não é uma resolução de ano novo difícil de pôr em prática, pois não?

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