Por Gustavo Martins-Coelho [a]

No dia de Acção de Graças, a mulher preparou um prato lindo para o marido, com tudo o que ele gosta. Mas, quando as pessoas de foram descobrem que ela faz isso ano após ano, algumas comentam a sorte do marido, por ter uma mulher que lhe faz isso, enquanto outros perguntam se ele não poderia ter servido o seu próprio prato, em vez de ficar à espera da mulher.

Podia, mas não o fez. O prato, por muito estranho que pareça, representa a compreensão que a mulher tem do marido: ela sabe o que ele gosta melhor do que ele, os seus hábitos e as suas tendências. Ele não lhe pediu que o servisse e podia ter-se servido, mas isto foi um pequeno gesto de amor, tal como ele se esforça por ter pequenos gestos de amor para com ela.

Os papéis no casamento estão em constante evolução, mas, quando uma mulher diz que um dos seus objectivos é «servir» o marido, isso gera desconforto: faz temer uma relação desigual e doentia, com a mulher relegada para a cozinha; perpetua uma visão sexista do trabalho não remunerado e invisível da mulher em casa.

Mas não é necessariamente assim; não se trata de papéis de género ou subserviência. Trata-se de querer fazer coisas que coloquem um sorriso nos lábios do marido; e pressupõe que o marido procure colocar um sorriso nos lábios da mulher, de igual forma. «Servir» é uma via de dois sentidos, construída na base do amor e do desejo de fazer o outro feliz.

O problema surge quando as pessoas de fora projectam as suas críticas e as suas expectativas na relação: uma pessoa vê a mulher a servir o prato do marido e assume imediatamente que a relação é de sentido único. Ou, quando o marido faz algo pela família que cai fora do tradicional papel masculino, recebe uma quantidade injusta de louvor. Se o o pai passeia o filho, todos o parabenteiam. Se a mãe passeia o filho, ninguém repara. Se o marido cozinha, limpa a casa e faz uma massagem à mulher, é um herói. Se a mulher faz o mesmo, está a comportar-se de forma «tradicional» e a vergar-se perante uma relação paternalista. Será o acto de «servir» que deixa as pessoas desconfortáveis, ou é o serviço feito segundo as normas de género. Se a mulher, em vez de realizar uma tarefa conforme ao estereótipo feminino, mudasse os pneus do carro do marido, já não seria vista como «subserviente»?

A mulher tem o direito de escolher «servir» o marido, como gesto de amor, tal como o marido tem o direito de se deixar «servir» e ficar feliz com isso, ao mesmo tempo que encontra maneiras de servir a mulher; e as pessoas têm de parar de ver nisso mais do que o desejo mútuo de fazer o outro feliz. Isso é tudo o que importa.


Nota:

a: Este artigo é um resumo do texto original do David Dennis, publicado no jornal «The Guardian» [1].

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