Por Carlos Lima

Quando as coisas não correm dentro da perspectiva que os dirigentes planeiam e dos objectivos delineados, é comum procurar-se um culpado para justificar o ocorrido. No futebol, a culpa recai frequentemente sobre o treinador — ou quase em exclusivo no treinador…

Em termos emocionais, nos clubes grandes, estas situações assumem particular importância mediática pois é suposto as equipas terem contratado treinadores ganhadores.

Vimos José Mourinho a deixar o Chelsea, depois de ter sido campeão, com uma época menos conseguida internamente, mas com tudo em aberto na Liga dos Campeões. Benitez deixa o Real Madrid; Nuno deixa o Valência e, recentemente, Lopetegui deixa o Porto.

Ao nível da liga portuguesa, Lopetegui foi o último e o mais mediático duma lista de sete treinadores despedidos em dezoito clubes, com particular ênfase para o Tondela, que já vai no terceiro treinador — e existem mais uns tantos na corda bamba.

É difícil olhar para um clube e perceber como se definem os objectivos, ainda que se perceba que, no F.C. Porto, se desejem coisas diferentes do Tondela. Mas quem define os objectivos? O treinador tem a opção de aceitar esses objectivos, mesmo que os considere demasiado ambiciosos, sem perder o emprego? Quantos dirigentes já se demitiram por não atingirem os objectivos por si propostos?

Nunca é demais ter ambição, mas compete aos clubes e aos seus dirigentes ser realistas, pois uma equipa demora o seu tempo a construir-se. As calendarizações são diferentes e, por vezes, não dão o tempo adequado para se construir uma base sólida. Depois, se todos cumprirem os seus objectivos, teriam de existir vários campeões e nenhuma equipa desceria de divisão.

Vou tentar analisar duas situações vividas na liga portuguesa, as quais, não esquecendo as diferenças, têm algumas semelhanças: Académica e V. Guimarães. Ambas as equipas mudaram de treinador à quinta jornada.

A Académica tinha um treinador que transitou da época passada — José Viterbo — em função do despedimento de Paulo Sérgio, em Fevereiro. Teve a oportunidade de planear a época e de ajustar o plantel às necessidades sentidas, tendo em conta o que o clube lhe podia oferecer.

À quinta jornada, só com derrotas, Viterbo abandonou o comando técnico para Filipe Gouveia, que fez a equipa evoluir. Existe aqui um pormenor importante: a Académica teve uma derrota no jogo imediatamente a seguir e sete jogos sucessivos sem perder, incluindo dois jogos para a taça de Portugal, o que indicia que o trabalho de Viterbo e de Gouveia foi complementar e que a equipa respondeu bem às alterações. Arrisco dizer que o grupo estava unido.

Académica

Até à 5.ª jornada

 

Entre a 6.ª e a 16.ª jornadas

Resultado V % E % D % V % E % D %
Jogos 0 0 0 0 5 100 3 27 4 36 4 36
Golos marcados 0 0 0 0 1 8 8 62 4 31 1 8
Golos sofridos 0 0 0 0 12 92 4 22 4 22 10 56

No Guimarães, Armando Evangelista assumiu a equipa após a saída de Rui Vitória para o Benfica. Teve uma pré-época muito curta, em função da necessidade de disputar as pré-eliminatórias da Liga Europa, não conseguido entrar na fase de grupos.

À quinta jornada, tinha apenas uma derrota, mas o número de empates e a eliminação da Liga Europa foram determinantes para o abandono do cargo, que foi ocupado por Sérgio Conceição. Com este, o Guimarães esteve quatro jogos consecutivos a perder (liga; taça da liga e taça de Portugal) e depois teve um empate, o que indicia problemas no balneário, ou alterações significativas no método de trabalho. Na era de Sérgio, a percentagem de derrotas aumentou, mas os empates passaram para vitórias e o Guimarães fez proporcionalmente mais pontos.

Guimarães

Até à 5.ª jornada

 

Entre a 6.ª e a 16.ª jornadas

Resultado V % E % D % V % E % D %
Jogos 1 20 3 60 1 20 5 45 1 9 5 45
Golos marcados 1 25 3 75 0 0 11 69 1 6 4 25
Golos sofridos 0 0 3 50 3 50 5 28 1 6 12 67

No gráfico da progressão por pontos, podemos observar a evolução de cada uma das equipas, de forma a construir o nosso espírito crítico em relação à situação de cada equipa e aos efeitos da «chicotada psicológica».

Quando um treinador sai e outro entra, existe habitualmente um período de adaptação da equipa, mesmo que esse treinador já esteja a trabalhar com o grupo.

Depois existem grupos fáceis de treinar, com lideranças dentro do balneário, que tornam a mudança gradual, e existem grupos difíceis, em que os processos dum novo timoneiro demoram a fazer efeito — e é nestes grupos que o carisma do treinador é determinante.

As chamadas chicotadas psicológicas são, na sua essência, rupturas com hábitos instalados. Quando as competências existem, resultam, mas demoram a resolver os problemas de fundo, que, muitas vezes, se centram na definição dos objectivos para aquele grupo.

Claro que ninguém quer ver a sua equipa a baixar de divisão, querem é ser campeões! Só que isso dá trabalho para todos, desde o presidente ao roupeiro — e, claro, aos treinadores…

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