Por Jarrett Walker [a]

É fácil construir um título sonoro, dividindo a riqueza do urbanismo em duas caixas opostas. Esta acção é mais interessante para mim, quando é feita por alguém que eu admiro e para fins que, em grande parte, partilho. O grande escritor Jonathan Raban, por exemplo:

A […] doce cidade da ilusão, do mito, da aspiração e do pesadelo é tão real, talvez mais real, do que a amarga cidade que se pode localizar nos mapas [e] nas estatísticas[…]

Esta frase chegou-me através do Bruce Katz no Twitter [2] e é tão poderosa, que eu a retuitei antes de ter tempo para pensar:

— Ei, espera lá, isto é uma treta!

Sim, a importância da ilusão, do mito, da aspiração e do pesadelo sempre tem de ser enfatizada, se uma pessoa sentir que a sua cidade está a ser geria por estatísticos. Mas esta é, ainda assim, uma dicotomia falsa e enganosa, como quase todas as dicotomias. Muitas vezes, precisamos de dicotomias como muletas, mas, quando elas se tornam-me muito fáceis, está na hora de lhes dizer adeus.

Os mapas estão cheios de ilusão, de mito, de aspiração e de pesadelo. Podemos pensar neles como produtos técnicos e podemos argumentar o valor de substituir a ilusão pela informação [3]. Mas, tal como o Mark Monmonier explica num célebre livro [4], os mapas sempre introduzem alguma distorção, com algum propósito. As aspirações que levaram à colonização e às conquistas que criaram o Novo Mundo de seriam inimagináveis ​​sem mapas — mapas desenhados para informar o conquistador, mas também para incentivar as suas ilusões e aspirações.

A ansiedade a respeito da estatística, por outro lado, é um disfarce do problema real, que é uma confusão a respeito da localização dos objectivos e das ideias de bem. A estatística e os mapas dizem-nos os factos da vida; e não é possível levar as aspirações a lugar algum, se não se conseguir lidar com a realidade presente. Todos temos de começar onde estamos.

A estatística, a matemática, e os mapas também nos dizem algo sobre os limites das aspirações. O leitor pode aspirar a uma cidade onde a circunferência dum círculo é apenas duas vezes o seu diâmetro, porque isso pode abrir possibilidades maravilhosas para a cidade ideal. Quando os matemáticos respondem que a circunferência dum círculo será sempre 3,14 vezes o diâmetro, é fácil descartá-los como «estatísticos», ou, para usar um estereótipo urbanista comum, «engenheiros» que não sabem deixar-se levar pela «visão».

Dentro do epigrama do Jonathan Raban (e também no interior da citação do último artigo [5]), está a confusão entre o «porquê» e o «como». «Por que» fazemos e queremos as coisas encontra-se no espaço «da ilusão, do mito, da aspiração e do pesadelo» (mesmo os balanços dos empreiteiros expressam tais motivos). Para conseguir o que queremos, no entanto, temos de interagir com a realidade; e a estatística e a matemática contêm algumas informações importantes sobre a realidade, assim como a nossa experiência pessoal.

Se alguma vez pudéssemos separar o «porquê» do «como», economizaríamos muito tempo e raiva e avançaríamos muito mais rapidamente no pensamento e na acção sobre as cidades. Poderíamos suprimir alguma grande literatura, mas um escritor tão bom como o Jonathan Raban iria orientar a sua mente para as questões mais subtis que restassem.


Nota:

a: Este artigo foi traduzido do original [1] pelo editor chefe (n. do T.).

Anúncios