Por Gustavo Martins-Coelho [a]

Pensa-se que ter trinta anos é a fronteira da estabilidade: a partir daqui, cuida-se dos filhos, entra-se às nove e sai-se às seis e os dias pouco passam disto. É falso.

Chegar aos trinta é o maior desafio das nossas vidas. Olhamos para trás e as conquistas parecem-nos parcas. Olhamos para a frente e observamos as ambições de sempre. Aos quarenta já se é velho para ter sucesso, julgamos.

Chegar aos trinta é achar que os anseios e desejos hão-de tocar à campainha sem ter de esperar muito para que lhes abramos a porta. É temer o falhanço e, ainda assim, fazer uma lista do que ainda se espera. É assistir às primeiras cedências anatómicas. É relembrar que a idade é o temporizador da não existência. É ver alguns amigos já casados, de recém-nascidos nos braços, mostrando ao mundo que os projectos de vida são reais e, embora nunca sejam lá muito planeáveis, são verdadeiramente realizáveis. É ver que o que sobra são os solteiros exigentes e os pavores do compromisso.

Chegar aos trinta é saber que já muito se fez e que muito há ainda por fazer. É o meio-termo entre a loucura da juventude e a circunspecção da vida adulta.


Nota:

a: Este artigo é um resumo do texto original do Nélson Nunes, publicado na revista «P3» [1].

Anúncios