Por Gustavo Martins-Coelho [a]

Todos sabemos o que fazem os professores, certo? Ao fim e ao cabo, todos pudemos ver, enquanto éramos estudantes. Conhecemo-los, compreendemo-los, sabemos o que se passa na sala de aulas, logo, sabemos o que os professores fazem. Sabemos quais são os bons professores, quais os que nos marcaram, quais mudaram as nossas vidas para melhor e para pior e quais eram umas nódoas. Ser professor não tem mistério, nem mística, nem respeito. Nós sabemos criticar os professores, porque somos melhores: fomos estudantes, mas agora fazemos, enquanto eles ensinam.

Estamos errados.

Temos de honrar, respeitar e ouvir os professores; parar de reduzi-los à medição arbitrária dos resultados dos alunos em exames «objectivos». E temos de parar de pensar que sabemos o que é ensinar, porque um dia fomos estudantes.

Não sabemos.

Ser estudante não prepara para ser professor. Aprender não ensina a ensinar. Somente anos de prática e melhoria contínua permitem aos professores serem verdadeiros profissionais, peritos em chegar até aos estudantes, inspirá-los e fazer a diferença, ensinando-os.

Um advogado ganha cinco vezes mais do que um professor. Mas não trabalha cinco vezes mais. Talvez até trabalhe menos. Mas um advogado começa como estagiário e vai progredindo na carreira, até dirigir o seu próprio escritório. Um advogado vai tendo mais responsabilidade, à medida que melhora a sua prática profissional. Dum professor novato, espera-se total capacidade e responsabilidade perante a primeira turma a que dá a primeira aula.

As pessoas respeitam os advogados, em parte, porque não fazem ideia do que eles realmente fazem. Mas as pessoas não sabem melhor o que é ser professor do que advogado, só porque foram estudantes. Os estudantes nunca desenharam um programa escolar, nunca prepararam uma aula, nunca foram a reuniões de professores, nunca avaliaram trabalhos, nunca criaram testes, nunca deram notas, nunca vigiaram a assiduidade, nunca deram explicações individuais, nunca reviram rascunhos de trabalhos académicos, nunca fizeram sumários, nunca deram trabalhos para casa.

Por isso, as pessoas não sabem. Enquanto estudantes, observaram. Talvez tenham aprendido. Mas não ensinaram.

O problema do ensino como profissão é que todos os cidadãos adultos sentem que conhecem o trabalho dos professores e se sentem habilitados a criticar, a propor soluções e a desenhar políticas, sem ouvir aqueles que realmente sabem o que é ensinar: os professores.


Nota:

a: Este artigo é um resumo do texto original da Sarah Blaine, publicado no blogue «Parenting the core» [1].

Anúncios