Por Satoshi Kanazawa [a]

Outro traço de personalidade em que os genes exercem uma influência muito forte e o efeito do ambiente partilhado é praticamente zero é a orientação sociossexual (a tendência para a promiscuidade sexual) e, por consequência, o risco de divórcio.

Num artigo anterior [2], eu explico a regra 50-0-50: a observação de que, para muitos traços de personalidade, cerca de 50 % da variância entre os indivíduos é atribuível aos genes (hereditariedade), aproximadamente 0 % da variância é atribuível ao meio ambiente partilhado (a interacção com os pais, que afecta todas as crianças na família de forma igual), e cerca de 50 % da variância é atribuível ao ambiente não partilhado (tudo o que afecta as crianças da mesma família de forma diferente, incluindo as influências dos pares).

Os psicólogos evolutivos que estudam a personalidade classificam os homens e as mulheres relativamente à orientação sociossexual entre os extremos de ilimitada e limitada. Comparados com os indivíduos sociossexualmente limitados, os indivíduos sociossexualmente ilimitados são mais propensos a:

  1. Ter relações sexuais mais cedo, nos seus relacionamentos amorosos;
  2. Ter relações sexuais com mais do que um parceiro ao mesmo tempo;
  3. Estar envolvidos em relações sexuais caracterizadas por menos investimento, compromisso, amor e dependência.

A orientação sociossexual (à semelhança de todos os outros traços de personalidade) é um traço relativamente estável ao longo da vida das pessoas; isto é, as pessoas são ou sociossexualmente limitadas ou limitadas durante a maioria da sua vida. Ainda que os homens sejam, em geral, mais ilimitados na orientação sociossexual do que as mulheres, a variabilidade dentro de cada sexo é muito maior do que a diferença entre os sexos.

Um estudo duma grande amostra de gémeos australianos, levado a cabo pelo grande geneticista do comportamento J. Michael Bailey e seus colegas mostra que a orientação sociossexual é outro traço de personalidade que segue aproximadamente a regra dos 50-0-50. A análise da genética do comportamento mostra que 49 % da orientação sociossexual é hereditária (determinada pelos genes), 2 % é atribuível ao ambiente partilhado e 47 % ao ambiente não partilhado. O modelo de Bailey et al. atribui os restantes 2 % da variância à idade do entrevistado, pelo que parece que a orientação sociossexual muda muito ligeiramente ao longo da vida.

Como se pode imaginar, a orientação sociossexual tem um grande impacto no risco de divórcio. Os indivíduos sociossexualmente ilimitados são muito mais susceptíveis de atravessar um processo de divórcio do que os indivíduos sociossexualmente limitados, porque os primeiros são mais propensos a envolver-se em casos extraconjugais. Por conseguinte, o risco de divórcio, enquanto característica individual, segue também a regra dos 50-0-50. É sabido há algum tempo que os filhos de casais divorciados têm uma maior probabilidade de também se divorciarem do que os filhos de casamentos que perduraram. Parece que a maior parte da hereditariedade do divórcio ocorre por meio da transmissão genética.

Um estudo de gémeos conduzido por Victor Jockin, Matt McGue e David T. Lykken mostra que, entre os homens, 59 % das diferenças individuais no risco de divórcio é hereditário, 0 % é atribuível ao ambiente partilhado e 41 % é atribuível ao ambiente não partilhado. Entre as mulheres, 55 % é hereditário, 0 % é devido ao ambiente partilhado e 45% é devido ao ambiente não partilhado. O efeito genético, nesse estudo, é tão forte que o risco de divórcio dum gémeo monozigótico pode ser previsto tão bem pelas características do seu irmão gémeo como pelas suas próprias características. Outro estudo realizado por McGue e Lykken mostra que a repartição para o risco de divórcio é 52-0-48 para os homens e para as mulheres 53-0-47.

Mais uma vez, é notável o quão perto estas distribuições se situam da regra dos 50-0-50. A proximidade à regra é ainda mais notável, quando nos lembramos de como o risco de divórcio é diferente da ligação partidária [3] (a força com que uma pessoa se identifica com o seu partido político). No entanto, ambos (bem como uma grande variedade doutras características de personalidade e individuais) seguem a regra dos 50-0-50 — cerca de metade da sua variância é atribuível aos genes, nenhuma ao ambiente partilhado da socialização com os pais e a restante metade ao meio ambiente não partilhado das experiências fora de casa. Os pais não têm praticamente qualquer efeito intencional em qualquer um deles.


Nota:

a: Este artigo foi traduzido do original [1] pelo editor chefe (n. do T.).

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