Por Jarrett Walker [a]

O termo «circular em vazio» significa «circular fora de serviço, sem passageiros». Eu gosto do termo inglês — «dead running» —, pois poderia ser o título dum filme de zumbis. Estou curioso para ver se esta coluna vai receber visitas de falantes de Inglês, por causa das pesquisas no Google.

O termo norte-americano é «deadheading», que remete para os fãs de rock duma determinada época [2]. Em ambos os casos, a palavra «dead» — morto — é apropriada. É um desperdício, uma perda. É inevitável até um certo ponto, mas os operadores de transportes colectivos estão sempre a tentar transformar os tempos mortos em tempos vivos, úteis.

O Brisbane Times tem uma peça da jornalista Marissa Calligeros, que relata que «28 por cento dos serviços de autocarro circulam em vazio e os passageiros não podem embarcar» [3]. Essa é uma maneira confusa de expor a situação. A repórter deve querer dizer que os autocarros em Brisbane circulam em vazio 28 % do tempo.

Parece muito, mas circular em vazio é consequência de duas questões diferentes, que devem ser mantidas separadas.

  • Todos os veículos de transporte colectivo têm de viajar entre os seus pontos de recolha, onde são estacionados e reparados, e os pontos de início e fim de linha. Os serviços ferroviários têm geralmente pontos de recolha directamente sobre a linha, mas ainda podem ter de circular em vazio através do sistema ferroviário para chegar ao ponto de partida da sua viagem. As recolhas de autocarros podem estar em qualquer lugar. A localização das recolhas é uma questão importante. Muitas vezes, vale a pena gastar mais dinheiro no investimento, para economizar dinheiro na operação — e um investimento cuidadoso nos pontos de recolha, reduzindo a circulação em vazio, pode ser uma boa estratégia.
  • Os operadores que transporte colectivo que servem extensas linhas expresso unidireccionais incorrem em enormes despesas de circulação em vazio. Brisbane, por exemplo, é uma cidade muito, muito centralizada, com um centro de longe desproporcionado em relação aos arredores. Isso significa uma enorme procura de viagens dum sentido, para o centro, na parte da manhã, e a partir do centro, à noite. Todos esses serviços que são necessários num único sentido têm geralmente de voltar para o ponto de partida, de modo que o turno do motorista possa terminar onde começou. A outra alternativa é pagar ao motorista para ficar à espera na Baixa durante todo o dia, o que é ainda mais caro.

Não é possível entender a questão da circulação em vazio em Brisbane, ou a de qualquer outra cidade, sem separar estas duas causas. O artigo do Brisbane Times só fala sobre o primeiro, mas a rede de autocarros de Brisbane tem um enorme pico de viagens de sentido único, devido ao seu centro dominante e à relativa falta de caminhos-de-ferro directos para grande parte da cidade. Pode a circulação em vazio ser minorada por uma avaliação rigorosa da possibilidade destes serviços de ponta de sentido único serem combinados, substituídos por ligações ao transporte ferroviário, ou tornados mais eficientes? Dado o elevado custo de circulação em vazio dum serviço de hora de ponta de sentido único, poderia algum dele ser convertido em serviço de dois sentidos, durante todo o dia, com menos custos do que pode parecer à primeira vista?

Esta é uma questão importante para qualquer cidade. O custo com os motoristas variam, mas, em geral, a circulação em vazio é uma das principais razões por que o serviço expresso de sentido único (autocarro ou comboio) pode ser mais caro do que parece.


Nota:

a: Este artigo foi traduzido do original [1] pelo editor chefe (n. do T.).

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