Por Gustavo Martins-Coelho [a]

O acordo ortográfico é uma decisão política e como tal deve ser tratado. Não é uma decisão técnica, sobre a melhor forma de escrever; não é uma adaptação da escrita à oralidade; não é uma melhoria necessária; não é um instrumento de cultura e criação. É um acto político falhado, cujas consequências serão gravosas principalmente para Portugal e para a sua identidade como casa-mãe da Língua Portuguesa.

O acordo vai a par do crescimento facilitista da ignorância, da destruição da memória e da História, a que assistimos todos os dias, impondo um Português pidgin, infantil e rudimentar, mais próximo da linguagem dos SMS, que nem sequer serve para comunicar. Ninguém que saiba escrever o quer usar; escritores, pensadores, cronistas, jornalistas e outros recusam-no com uma veemência, que devia obrigar a pensar e reconsiderar.

Se a «minha pátria é a Língua Portuguesa», o acordo é um acto antipatriótico.

Aos políticos que decidiram implementá-lo à força e aos linguistas e professores comportando-se como tecnocratas agressivos, há que lembrar a frase de Weber: a maioria das suas acções tem o resultado exactamente oposto às intenções. O acordo ortográfico é um excelente exemplo: na sua tentativa de criar uma norma universal do Português escrito, acabou por se tornar irritante nas relações com a lusofonia, suscitando uma reacção ao paternalismo de querer obrigar a escrita dos países a uma norma definida por alguns linguistas e professores de Lisboa e de Coimbra.

O problema é que sobra para nós, os aplicantes solitários do acordo — cuja validade na ordem jurídica nacional é contestável, que nenhum outro país aprovou e que vários explicitamente rejeitaram —: o custo do acordo. É o caso dos editores de livros escolares, que começaram a produzir manuais conforme o acordo.

O erro foi no domínio da nossa política externa. Os Brasileiros, que têm um Português dinâmico, capaz de absorver estrangeirismos e de gerar neologismos com pernas para andar muito depressa, sabem que o «seu» Português é o mais falado, mas têm a sensatez de não o considerar a norma. Nós — seguimos a luta perdida dos Franceses para a sua língua, também uma antiga língua imperial, hoje em decadência. Querem, usando o poder político e o Estado, manter uma norma rígida, para dar ao Francês uma dimensão mundial, que já teve e hoje não tem, num combate insensato contra o facto do Inglês se ter tornado a língua franca universal.

Está na hora de acabar com o acordo ortográfico de vez e de voltarmos a nossa atenção e escassos recursos para outros lados, onde melhor se defende o Português, como, por exemplo, não deixar fechar cursos de Português nalgumas das mais prestigiadas universidades do mundo, ter disponível um corpo da literatura portuguesa em livro, incentivar a criatividade em Português ou de portugueses e promover a língua pela qualidade dos seus falantes e das suas obras.


Nota:

a: Este artigo é um resumo do texto original do José Pacheco Pereira, publicado no jornal «Público» [1].

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