Por João Francisco Pupo

«The big short» (ou «A queda de Wall Street») é um dos fortes candidatos aos Óscares de 2016, tendo já ganho o respeitado prémio da Producers Guild of America, no passado dia 23 de Janeiro. Brad Pitt, Dede Gardner e Jeremy Kleiner, produtores do filme, começam da melhor maneira aquele que pode ser um bom percurso de vitórias.

O protagonista é Michael Burry (Christian Bale), um excêntrico gestor de fundos de cobertura de risco, e o filme acompanha-o na operação da alienação de títulos associada à bolha especulativa do fenómeno subprime (mas a história desenvolve-se paralelamente, recorrendo a outras linhas narrativas) e aos reflexos dessa operação nas vidas das respectivas personagens.

O filme é uma mistura de diversos registos, que vão da comédia ao documentário, misturando ficção com realidade (é baseado no livro de não-ficção «The big short: inside the doomsday machine», de Michael Lewis) e num tom, que também varia entre o puro entretenimento e a denúncia. À medida que avançamos no filme, este vai compondo um retrato da inevitabilidade e da opacidade associadas ao funcionamento do mundo que descreve — o mundo financeiro.

Na verdade, o próprio filme diz-nos que não vale a pena esforçarmo-nos por entender a fundo como funciona o fenómeno especulativo, já que é concebido propositadamente para confundir, e, por isso, podemos ficar tranquilos quanto à nossa pouca capacidade do entender.

Soa remotamente a um comentário que podia ter sido feito por um gestor de conta irresponsável, movido pelos seus objectivos anuais, a atrair clientes para produtos financeiros tóxicos na iminência de estourarem. Ainda que as entidades do fenómeno subprime sejam outras: Bear Sterns, JP Morgan, Goldman Sachs, etc., também a nossa banca nacional tem a sua colecção de entidades tomadas por controversas: BPN, BPP, BCC, Banif e, mais recentemente, o BES.

Por isso, não deixamos de sentir, ao ver o filme, que existe um elo de ligação entre aquele fenómeno, o efeito devastador que teve em milhares de pessoas, e os fenómenos de fraude perpetrados no nosso País. Existirá também um elo de ligação entre a impunidade que o filme revela e os resultados judiciais do que se apurar por cá?

Em 1655, o Padre António Vieira proferiu, na presença do Rei D. João IV, o Sermão do Bom Ladrão, defendendo, entre outras coisas, que tanto é ladrão o que é preso, como o que se aproveita, tanto o que faz, como o que, tendo poder para o impedir, assiste sem nada fazer. Governantes, juízes, reguladores, agências, bancos fazem muitas vezes parte dum mesmo grupo, em que o único pecado é dar nas vistas.

Por isso, «The big short» vale a pena. Não tanto pelo filme em si, já que estamos perante um daqueles casos em que o livro deve ser melhor, mas pelas reverberações que causa na nossa pequena realidade.

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