Por Alice Santos

Com a entrada em cada novo ano, renovamos a esperança num futuro melhor. Por uns dias, tudo o que é menos bom é relegado para último plano, ou, pelo menos, fica arrumado a um canto, na «gaveta dos esquecidos», até passar a euforia das festas. No entanto, mal pomos um pé fora das festividades, a rotina volta a instalar-se e todo o frenesim do dia-a-dia ataca em força. Regressa com tudo o que é habitual. Correria de casa para o trabalho e do trabalho para casa, com as paragens obrigatórias nas escolas dos filhos e nos supermercados, para que nada lhes falte.

— Vale a pena tanto desgaste? — perguntamos, quando o cansaço se apodera dos corpos.

Quando o sono quase nos vence e a noite se instala em nós, somente nos apetece que o seu manto escuro nos envolva e cale as mil e uma questões que nos perturbam a pacata existência. É só aí que perguntamos…

Noite
que anseias?
Não te pertenço já?
O sol da Primavera
já é teu…
O luar de Agosto
já envolves…
E eu…
Só…
Na imensidão
do dia claro
perco-me.
Não sei viver,
não sem ti,
minha companheira.
Tudo é teu.
E eu sou tua.
Leva-me.
Envolve-me
no teu manto
e deixa-me
adormecer.

Noite in «A arte pela escrita oito: coletânea de prosa e poesia», Mosaico de Palavras Editora e EscritArtes, 2015

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