Por Gustavo Martins-Coelho [a]

Vivemos tempos fúteis, necessários ao sustento do crescimento económico, uma vez que as necessidades básicas dos seres humanos rapidamente se satisfazem. É do brilho das lantejoulas que a economia se alimenta, mas não só ela: também muitas pessoas encheram os seus cérebros com lixo, privando-os de produzir qualquer pensamento e criando uma cultura do supérfluo, onde o material e o instantâneo esmagam a reflexão e a crítica.

Demasiadas pessoas se limitam a discutir futebol, crimes e escândalos mediáticos, a ouvir música pimba, a passar tardes nos centros comerciais, a ver telenovelas e reality shows e a ir beber para bares e discotecas, ao som de música ensurdecedora, esquecendo a participação política e o trabalho cívico ou comunitário. Estas pessoas têm uma força que não podemos desprezar e que as torna perigosas. Quando a Britney Spears vota no George W. Bush, está a colaborar com as guerras e mortes injustificáveis desencadeadas pela sua administração, enquanto canta e se enche de cocaína, patrocinando o sangue que esse pó branco originou. Pensar que alguém como a Britney é inócua, porque se limita a ser fútil, é de uma ingenuidade assustadora! As personagens fúteis alimentam este sistema, que põe as crianças a fabricar na China brinquedos para outras crianças, geringonças electrónicas para nos entretermos, ou acessórios da moda.

As pessoas fúteis nada fazem perante o mal, deixando-se enterrar na passividade. São tão perigosas como os que perpetram o mal!

Precisamos de pessoas activas, despertas, pensantes, críticas, que votam, que se organizam, que protestam, que criam novas soluções, que rejeitam o consumismo e o telelixo, que não se deixam corromper, nem toleram os que o fazem, que se indignam com a pobreza, a guerra, o fanatismo, os genocídios; e que praticam a honestidade, o respeito, a ponderação e o civismo. Precisamos de cidadãos activos, com pensamento crítico, que dêem à futilidade o devido espaço residual e a não deixem ser o motor do mundo.


Nota:

a: Este artigo é um resumo do texto original do Gabriel Leite Mota, publicado na revista «P3» [1].

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