Por Hélder Oliveira Coelho [a]

Para Sempre

Por que Deus permite
que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite,
é tempo sem hora,
luz que não apaga
quando sopra o vento
e chuva desaba,
veludo escondido
na pele enrugada,
água pura, ar puro,
puro pensamento.
Morrer acontece
com o que é breve e passa
sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graça,
é eternidade.

Carlos Drummond de Andrade, in «Lição de Coisas»

As coisas simples são, não raras vezes, as que nos esquecemos. O quotidiano não se compadece com a vida pessoal de cada indivíduo. A condição do homem cada vez mais se reduz ao mecanicismo. Em bom rigor, pouco importa que origem temos, no que acreditamos, do que gostamos. Agora, somos utentes!

Utilizadores de algo que não entendemos bem, mas sob uma vasta manta de hipocrisia. Da economia à política, há a ilusão de que a finalidade última é o bem-estar dos Homens. Reconheço que, em teoria, isso pode ser verdade. Todavia, as dimensões em que mais urge trabalhar para o sucesso estão bem mais próximas de qualquer um de nós do que possamos imaginar.

A tríade biológica em que nos fazem acreditar assenta em dois gâmetas que se encontram para a construção dum novo ser. Acontece que a tríade é outra. Pai, mãe e filho, numa construção limitante da biologia humana, deve substituir-se por avô, pai e neto. A tríade de sucesso não está na união nuclear de famílias, mas antes na união de gerações!

A sedimentação da memória colectiva transgeracional é o motor do nosso sucesso. A cultura do utilitarismo do ser humano criou a grande farsa em que se transformou a relação entre gerações.

À memória soma-se a mais profunda dimensão da humanidade, o amor. As mães sabem-no no seu íntimo e desculpam ad aeternum o esvaziamento da figura materna, para a construção do primado da cria, com a consequente ablação geracional que tal implica.

E por que o desculpam? Creio que o adágio popular «filho és, pai serás» complementa o peso da exigência da sociedade de consumo.

Contudo, são eternas, dizem os poetas. E sabemos que são eternas. Sentimos o seu colo, passe o tempo que passar. Mas as mãos que já não as possam sentir carregam o gelo da mais profunda e dolorosa orfandade. As coisas simples são as que podemos fazer todos os dias. São as que constroem o mundo em que vivemos. São as coisas que vão para além da vontade do chefe ou do imposto. Se isso importa? Claro que importa. Mas não será tudo! Se o trabalho tem oito horas de obrigação e o descanso outras oito, sobram oito, que devem ter o mesmo rigor aritmético na sua distribuição! Se cinco minutos forem para dizer às nossas mães que as amamos, serão os cinco minutos mais bem empregues do dia!


Nota:

a: Esta crónica é para ser lida ao som da Rapsódia sobre um tema de Paganini, de Rachmaninoff — op.43, variação 18 (Andante cantabile) [1].

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