Por Sara Teotónio Dinis

A citação diz algo do género: quem vive no passado está deprimido e quem vive no futuro está ansioso, por isso viva no presente. É bem verdade…

Voltando a parafrasear Bruno, «a vida é um jogo de expectativas». Penso ser essa a razão pela qual as pessoas remoem o passado — porque viram expectativas ser defraudadas dalguma forma — ou o futuro — porque têm medo que as expectativas que possuem nunca se concretizem.

Ninguém é capaz de garantir isto:

— Vais ser feliz. Não te preocupes, vais conseguir o que tanto desejas e isso vai fazer-te feliz. Quando? Daqui a um mês, mais dia menos dia. Como é que eu sei? É limpinho e certinho!

Quase tão certinho como seres mentiroso, só pode!

Por que falo eu disto hoje? Bom, não é novidade para o leitor que escrevo esta coluna [1] desde Novembro de 2013. O «Olho Clínico» [1] dá-me um certo gozo — gosto muito de escrever e fazê-lo com regularidade tem sido importante para mim.

Funciona da mesma forma que aquela mesa da sala dos quatro anos, onde a minha educadora espalhava tinta para eu mexer com as mãos e rapidamente «imprimir», com uma folha de papel espetada por cima, uma estampa colorida para dar à mãe e ao pai.

Escrever o «Olho Clínico» [1] durante o internato, contudo, revelou-se um desafio — parte do prazer que me dava foi substituído pela ansiedade de saber que aqueles que me avaliam poderiam ler o que escrevia e não concordar, ou não gostar. Que aconteceria, se assim fosse?

Aos dezasseis anos, quando, pela primeira vez, defendi um ponto de vista perante os meus professores no Secundário, acerca de algo que não considerava ter corrido da melhor forma numa visita de estudo, fui humilhada pela minha directora de turma, em frente à turma inteira. Chamou-me nomes feios, desacreditou-me veementemente e abandonou a sala, sem me dar hipótese de defesa. A reacção da turma foi afastar-se de mim e juntar-se num magote a cochichar de incredulidade. Afinal de contas, não era todos os dias que a «DT» enxovalhava a melhor aluna da turma… Lembro-me bem do que chorei — de orgulho ferido, sabendo que tinha razão e não merecia tal espectáculo.

Parece estúpido descrever esta novela passada há onze anos, mas o raio do episódio pode ser a explicação para o medo idiota que me invadiu há uns meses, quando fui confrontada com o facto de alguém do meu local de trabalho ter descoberto a «Rua…» [2] – e, consequentemente, o «Olho Clínico» [1]. O medo que algo semelhante se repetisse assolou-me e, no ímpeto daqueles dias, que curiosamente coincidiram com um período de resumos recusados de forma injustificada, decidi realinhar os xacras à minha escrita crítica e contundente.

Mas porquê, se não tinha escrito nada errado?

Dei por mim como os outros todos, a viver no futuro — cheia de medo. Esse estupor frio sugou-me a alegria que tinha em publicar todas as Terças. Assombrou-me as linhas, fustigou-me a guarda. E porquê? Porquê, Sara, porquê?

Os colegas da minha unidade gostam de ler o que escrevo. Os colegas de internato não sei se gostam ou não. Já vou a meio do internato. Já fiz trabalhos bons e trabalhos maus. Volta e meia, os resumos são recusados. Volta e meia, os resumos são aceites. Curiosamente, a recusa dum resumo é insignificante, quando comparada com o desprezo dum colega — algo que também já aconteceu. Continuo a defender os meus colegas — sem desprezo ou com desprezo. Tenho imensas ideias — as melhores nascem do meu cansaço. Não tenho tempo — como qualquer interno que se preze.

Por isso, por que raio não hei-de escrever o que me apetece?

Este medo que permanece deve existir porque sei que faço o mais difícil — escrever com o meu nome no fim. Já quem lê… pode continuar a fazê-lo incógnito. Confortável, sem dúvida.

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