Por Gustavo Martins-Coelho [a]

Várias personagens, entre as quais o antigo primeiro-ministro, previram e prevêem tranquilamente o empobrecimento progressivo do País. Nenhuma delas parece ter vivido os tempos de fome e desespero que duraram muito mais de quarenta anos, durante a República, Salazar e Caetano.

Ainda não me esqueci do que era a vida nessa altura. Não falo da esquálida miséria do campo ou da província, onde o horror se tinha tornado a norma. Na falta de experiência directa, seria um impudor.

Mas não me importo de falar da classe média privilegiada em que nasci. A pobreza contaminava o que se vestia, o que se comia, o que se fazia, o que se pensava. A tirania estava mais na necessidade de poupar, na privação perpétua do prazer, no mundo imóvel e sem saída, do que na autoridade do Estado. Um liceu de crianças caladas e uma universidade destinada a premiar os filhos de família e a submissão não favoreciam a aprendizagem; levavam a uma punição que moía e predispunha à desistência e ao cansaço.

O Portugal de hoje não conseguiria perceber o Portugal de 1950 ou 1960. Agora, até se glorifica o crescimento da economia e a estabilidade financeira de então, esquecendo que a pobreza condenava as crianças e Lisboa era um deserto, onde ir ao café ou a um cinema de «reposição» era um acontecimento. Os sinais que o País começa a voltar atrás são claros. Arriscamo-nos a acabar na mediocridade e na tristeza duma sobrevivência sem destino.


Nota:

a: Este artigo é um resumo do texto original do Vasco Pulido Valente, publicado no jornal «Público» [1].

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