Por Gustavo Martins-Coelho [a]

Nos anos recentes, houve uma mudança na forma como os médicos exercem a sua profissão. O médico de hoje não olha para o seu doente. Enquanto faz perguntas e ouve a resposta, vai teclando no computador, olhando para o ecrã e introduzindo a informação nos formulários informáticos. Não é que os médicos se tenham tornado rudes, mas a isso são obrigados, pela necessidade de registar tudo electronicamente, que os torna escriturários da consulta.

A intimidade entre o médico e o seu doente, a capacidade do primeiro entender o que não é dito, ao olhar para a expressão que o segundo apresenta, é fundamental para o cuidado de saúde. O doente marcou a consulta, veio até ao consultório e preparou uma lista das suas preocupações. Quando o médico, em resposta aos regulamentos do século XXI, se afasta do doente e comunica com um ecrã, algo intangível se perde.

Estas alterações foram instituídas em nome da eficiência. Decerto, os registos electrónicos melhoram a integração de cuidados, reduzem a duplicação de exames e aumentam a qualidade dos serviços de saúde; e é preciso adaptar o ambiente de trabalho do médico à necessidade de informatização. Mas, enquanto os serviços aumentam a sua eficiência, quem defende o doente e a sua necessidade de atenção?

Uma solução poderá ser a introdução de escribas, que acompanham o médico e fazem o registo, permitindo a este falar com o doente olhos nos olhos. Mas esta solução cria um outro problema: a introdução dum estranho no consultório, que quebra a intimidade da relação entre o médico e o seu doente.

Os médicos tentam fazer funcionar o sistema que os rodeia o melhor que podem. Mas os burocratas, por muito bem-intencionados que sejam, nada perdiam em aplicar a si mesmos um princípio de ética médica:

Primeiro não fazer mal.


Nota:

a: Este artigo é um resumo do texto original do Bob Green, publicado pela televisão CNN [1].

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