Por Gustavo Martins-Coelho [a]

Namora uma rapariga que não lê. Envolve-te com as suas trivialidades não sentimentais. Fala de coisas sem significado. Pensa pouco. Trá-la para viver contigo. Casa com ela. Deixa os anos passar. Constrói uma carreira, compra uma casa, cria dois filhos. Atravessa a tua crise de meia-idade. Envelhece, contrai uma doença terminal e morre, mas certifica-te antes que a rapariga que não lê nunca fez o teu coração balançar.

Faz tudo isso, porque nada é pior do que uma rapariga que lê e uma vida no purgatório é menos má do que uma vida no inferno. Uma rapariga que lê dispõe do vocabulário para distinguir entre a retórica de quem não a ama e o desespero de quem a ama demais. Uma rapariga que lê compreende a sintaxe da diferença entre uma vida plana e uma vida bem vivida. Uma rapariga que lê sabe a importância da narrativa e o significado inelutável do fim. Uma rapariga que lê diz adeus a incontáveis heróis sem uma mácula de tristeza. Uma rapariga que lê sabe contar uma história.

Tu, rapariga que lês, fazes a minha vida difícil. Fazes-me querer ser o que não sou, para te desapontar, quando fico aquém das tuas expectativas. Tu não vais aceitar a vida que descrevi no início desta peça. Tu não vais aceitar menos do que paixão, perfeição e uma vida digna de ser escrita. Por isso, adeus, rapariga que lê. Odeio-te.


Nota:

a: Este artigo é um resumo do texto original do Charles Warnke, publicado no blogue «Thought catalog» [1].

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