Por Gustavo Martins-Coelho [a]

Em 1937, o teclado de escrita «HCESAR», foi tornado, por decreto, o «teclado nacional». A postura de «orgulhosamente sós» obrigava-nos a desafiar a hegemonia dos padrões internacionais — o «AZERT», em voga na Europa, e o «QWERT», mais usado nos Estados Unidos da América. Mais do que uma variante, o teclado português era uma quebra absoluta. Para além da distribuição única de letras, o «HCESAR» obrigava à utilização de combinações de teclas para a obtenção de certos símbolos:

  • O ponto de exclamação era obtido pelo uso do apóstrofe e do ponto final;
  • O asterisco era obtido por justaposição do «X» minúsculo com o sinal de subtracção ou adição;
  • O sinal de diferente era obtido por via sinal de «igual» e uma barra;
  • O cardinal obrigava ao uso do «igual» e de duas barras, tipografadas enquanto cautelosa e progressivamente se premia a tecla de apagar.

Não havia zero; usava-se o «O» maiúsculo [2].

Em organismos públicos, usava-se exclusivamente o «HCESAR», mas, em privado, havia quem mantivesse uso do «AZERT» e do «QWERT». Os importadores trocavam as teclas, para parecer «HCESAR», a alfândega fazia uma inspecção visual, mas não experimentava o teclado, e o comprador voltava a trocar as teclas. O advento dos computadores ditou a morte do «HCESAR» e mesmo do «AZERT», preteridos face à massiva produção americana.

O esquema do teclado foi inventado com o intuito de evitar o bloqueio das teclas e martelos respectivos nas máquinas de escrever, colocando afastadas as letras que tipicamente são usadas consecutivamente (nas palavras de origem anglo-saxónica, naturalmente). Mas, de facto, o «QWERT» não é o esquema de teclado mais eficiente. O «Dvorak», por exemplo, colocava todas as vogais e as consoantes mais usadas na linha central, permitindo que o escritor se centrasse nessa linha e usasse as restantes quando necessário; podem escrever-se cerca de quatrocentas palavras (em Inglês) com uma linha de teclas do «Dvorak», mas apenas cem com o «QWERT». O «Colemak», desenvolvido em 2006, reduz em mais de 50 % a distância percorrida pelos dedos, permitindo escrever muito mais palavras apenas com a linha central de teclas. O «Chubon» facilita a escrita a pessoas com mobilidade reduzida [3]. Existe software capaz de optimizar o esquema dum teclado, baseando-se na língua em que o mesmo é mais usado e tendo em conta o seu léxico e a probabilidade de uso das palavras. Para o Inglês, o «QGMLWB» o mais optimizado.

Apesar dos estudos das alternativas, o «QWERT» mantém-se na liderança, até que os fabricantes de software e hardware decidam que é hora de mudar.


Nota:

a: Este artigo é um resumo do texto original d_ _, publicado na revista «P3» [1].

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