Por Carlos Lima

Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida,
que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança.

António Gedeão

Uma criança vive, experimenta, testa tudo o que quer saber e permanece curiosa e em permanente busca.

Quando joga, joga com prazer e entrega-se por completo, num nível de abstracção que é difícil penetrar, porque ela não vive o jogo e vive no jogo.

Estas duas ideias são difíceis de entender por adultos, principalmente por aqueles que nunca foram crianças, porque não o puderam ser, porque a vida não deixou, como são as situações de guerra, os divórcios em que os pais são um problema, ou outros problemas da vida, que os tornam verdadeiros sobreviventes. Ainda assim, como diz Paulo Coelho, os adultos podem aprender três coisas com as crianças: «a ficar contente sem motivo, a estar sempre ocupado com alguma coisa, e a saber exigir — com toda a força — aquilo que se deseja.»

Depois, as crianças crescem; tornam-se adolescentes curiosos, mas muito menos persistentes na busca, quer por um direccionamento mais objectivo, quer por um maior entendimento dos riscos e das dificuldades, quer pela intolerância e pela inércia que é preciso vencer nos adultos «donos do saber».

O adolescente não vive no jogo, joga. Se esse jogo lhe dá prazer e sucesso, continua. Se esse jogo se transforma numa obrigação, então é o fim do sonho. Claro que o jogador profissional também joga por obrigação, mas mantém o sonho e obtém contrapartidas, que lhe permitem cuidar dos sonhos.

Quando um educador trabalha bem com uma criança, tenta orientá-la e não direccioná-la, porque a primeira opção consiste em acompanhá-la no caminho, ou caminhar com ela, enquanto a segunda é caminhar à frente dela. Talvez haja momentos em que as duas coisas são importantes, mas o essencial é «deixá-la navegar à vista», ainda que o processo negocial tenha de estar sempre presente. Paulo Freire considera a educação como «um acto de amor, por isso, um acto de coragem. Não pode temer o debate. A análise da realidade. Não pode fugir à discussão criadora, sob pena de ser uma farsa». No fundo, é ensiná-la a ser, a saber e a fazer, a decidir e abrir caminhos.

Neste enquadramento, o papel do educador é em grande parte manter o sonho em aberto e permitir que a criança cresça dentro do sonho de ser o que realmente deseja ser (e não a realização de quem não foi).

No caso do treinador, todos sabemos que a maior parte das crianças com quem trabalhamos não vai fazer do futebol vida. Manter o sonho de poder sê-lo é incentivá-la a lutar por isso, mas, ao mesmo tempo, capacitá-la para a decisão de não vir a sê-lo, se alguma vez tiver de tomar tal decisão, sem perder a esperança e o sonho de realização de vida.

Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida

António Gedeão

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