Por Alice Santos

David de Jesus Mourão-Ferreira nasceu em Lisboa, decorria o dia 24 de Fevereiro de 1927, e faleceu na mesma cidade, no dia 16 de Junho de 1996. Do casamento entre David José da Silva Ferreira e Teresa de Jesus Mourão-Ferreira, nasceu dois anos mais tarde o seu irmão Jaime Alberto, com quem viria a fazer parceria na «edição» de jornais, que Jaime Alberto ilustrava. Nessa época, já deixava transparecer o seu gosto pela literatura.

Durante os seus estudos no Colégio Moderno, começa a escrever no jornal de estudantes «Gente Moça» e, mais tarde, em 1945, publica os seus primeiros poemas, na revista «Seara Nova». Ao fim dum ano, voltava a publicar poesia, apesar dos inúmeros afazeres, incluindo a sua licenciatura em Filologia Românica, na Faculdade de Letras de Lisboa.

A sua tese de licenciatura: «Três coordenadas na poesia de Sá de Miranda» é um forte indicador do que viria a ser a sua vida. Um escritor multifacetado, mas com enorme propensão para a poesia. Adivinhava-se a publicação da sua primeira obra de poesia, pois, apesar da sua actividade teatral e editorial, a poesia estava sempre presente. «A secreta viagem» é dada a conhecer aos leitores em 1950.

Na década de 50, através do seu cunhado Rui Valentim de Carvalho — havia casado entretanto com Maria Eulália Barbosa de Carvalho —, conhece Amália Rodrigues. Este encontro mudaria a sua forma de estar perante o fado e o fado propriamente dito. O escritor afirmou:

— Mas que surdo e raivoso burburinho, nas hostes literatas e policastas, quando comecei a escrever versos para Amália cantar! — (cf. David Mourão-Ferreira, «Um livro de e sobre Amália», in «Ócios do Ofício», 1989, p. 35).

Assim, surgem as suas primeiras letras de fados pela voz de Amália: «Primavera» (1953), «Libertação» (1955), passando a poesia conhecida como erudita (não apenas a de David Mourão-Ferreira) a constar do reportório de Amália (tendo sido fortemente impulsionada pelo compositor Alain Oulman). Mais tarde, poemas como «Sombra», «Anda o Sol na minha rua» e «Barco negro» tornaram-se grandes êxitos, que ainda hoje perduram e são referência e cantados por muitos.

É nomeado regente das cadeiras de Teoria da Literatura e Literatura Portuguesa. Passa a estudar e a divulgar várias gerações de poetas, sem nunca descurar as outras actividades.

Na Emissora Nacional, apresenta o seu programa «Música e poesia» e, na Radiotelevisão, «Hospital das letras», acabando por ser afastado, ao não concordar com o encerramento da Sociedade Portuguesa de Autores, da qual foi, entre 1963 e 1973, secretário-geral. Aí, revelava já, duma forma mais acentuada, a sua faceta de político.

A sua obra nem sempre foi bem acolhida. Foi alvo dum processo judicial, quando prefaciou a tradução de «Filosofia de alcova», do Marquês de Sade, e ao subscrever o texto de apresentação da «Antologia da poesia portuguesa erótica e satírica», organizada por Natália Correia.

É, aliás, bastante conhecido como escritor de poesia sensual e erótica. Usando linguagem suave e sensual, deixa antever em seus versos um erotismo quase pueril. Se nos debruçarmos sobre o poema «Ternura», podemos ver e sentir isso mesmo quando diz:

Desvio dos teus ombros o lençol,
que é feito de ternura amarrotada,
da frescura que vem depois do sol,
quando depois do sol não vem mais nada…

Olho a roupa no chão: que tempestade!
Há restos de ternura pelo meio,
como vultos perdidos na cidade
onde uma tempestade sobreveio…

Começas a vestir-te, lentamente,
e é ternura também que vou vestindo,
para enfrentar lá fora aquela gente
que da nossa ternura anda sorrindo…

Mas ninguém sonha a pressa com que nós
a despimos assim que estamos sós!

Quanta delicadeza nas palavras, quanta paixão, quanta sensualidade!

Dado tratar-se dum homem que foi muito mais do que poeta, deveria escrever um extenso texto, no qual falasse ainda:

  • dos inúmeros prémios que recebeu. Em 1954, prémio de poesia Delfim Guimarães, com «Tempestade de Verão» e, em 1986, prémio de narrativa do Pen Clube Português, prémio D. Dinis da Fundação da Casa de Mateus e prémio de ficção Município de Lisboa, pelo romance «Um amor feliz»;
  • da sua carreira de político interventivo na área da cultura. Em 1974, torna-se sócio efectivo da Academia das Ciências de Lisboa; foi Secretário de Estado da Cultura; fundador da Companhia Nacional de Bailado; director do Serviço de Bibliotecas Itinerantes e Fixas da Fundação Calouste Gulbenkian, onde dirigiu a Revista «Colóquio/Letras», dando um grande impulso na divulgação das bibliotecas; e, em 1990, assume a presidência do Pen Club Português;
  • da missão cultural sempre patente na sua vida. Foi eleito vice-presidente da Association Internationale des Critiques Littéraires (1984–1992) e presidente da Associação Portuguesa de Escritores, onde se manteve até 1986.
  • da sua colaboração regular com jornais, que dirigiu e onde escreveu sobre poesia. No Diário de Lisboa, na rubrica «Poesia para todos», e no regresso à televisão, com «Imagens da poesia europeia» e «O dom de contar»;
  • do CD a que deu voz, do qual consta uma selecção de poemas de sua autoria. «Um monumento de palavras» foi gravado em 1995;
  • das condecorações, que foram muitas, quer em vida, quer póstumas. Em 1996, foi homenageado por todo o País, recebeu a Grã-Cruz de Santiago de Espada, foi condecorado pela Câmara Municipal de Cascais com o título de Cidadão Honorário e recebeu a Medalha de Ouro da Câmara Municipal de Oeiras. Em Maio de 2007, inaugurou-se, no Museu do Fado, uma exposição temporária intitulada «Primavera, David Mourão-Ferreira e o fado»; e, obviamente;
  • do infindável número de obras publicadas por si. «A secreta viagem», em 1950; «Arte de amar», em 1967, onde, apesar dalguns dissabores pelo caminho, reúne os seus primeiros cinco livros; e «Música de cama», uma antologia erótica inédita, em 1994, são apenas exemplos.

Na verdade, David Mourão-Ferreira deixou-nos uma obra vastíssima. Do ensaio ao romance («Um amor feliz»), da crónica à crítica literária, da conferência ao teatro («Isolda», no Teatro-Estúdio do Salitre), do fado (viu os seus poemas musicados e cantados por grandes vozes, como Amália Rodrigues e Luís Cília) ao cinema («Sem sombra de pecado»), mas passando sempre pela poesia (começou criando as folhas de poesia «Távola redonda»).

Muito mais haveria para dizer daquele que foi escritor e assumidamente poeta e que, com a sua postura, conseguiu mudar o panorama cultural nacional.

David Mourão-Ferreira escreveu, em «Os ramos e os remos», que «Antes de sermos fomos uma sombra / Depois de termos sido que nos resta / É de longe que a vida nos aponta / É de perto que a morte nos aperta.»

Como disse Vasco Graça Moura na RTP [1], o poeta tinha «o ofício de escreviver» e «precisava de viver para escrever e de escrever para viver».

Assim era David Mourão-Ferreira, o poeta que escreveu sobre o amor e a sensualidade como poucos. Erotismo e sensualidade que revelou logo nos seus primeiros poemas. Em «A secreta viagem», que é feita «No barco sem ninguém, anónimo e vazio», apenas «os dois, parados, de mão dada…», quais «figuras de lenda! Olhos vagos, perdidos…», onde, por entre as suas «mãos, o verde mar se escoa…», já se vislumbra o desfecho, quando se questiona «Aonde iremos ter?» Uma vez que «Com frutos e pecado, / se justifica, enflora, a secreta viagem», já sentimos o acelerar do desejo. Culmina, afirmando: «O resto passa, passa… alheio aos meus sentidos. / — Desfeitos num rochedo ou salvos na enseada, / a eternidade é nossa, em madeira esculpidos!»

São tantos e tão belos os poemas, que a escolha se tornou difícil. Contudo, creio que fica bem demonstrada a maturidade poética e o erotismo no poema que vos deixo, a terminar este já longo escrito.

Serenata do adolescente

Que doentia claridade
a que me invade e me obsidia,
durante a noite e à luz da tarde,
à luz da tarde, à luz do dia!
Que doentia aquela grade
de insone e ténue claridade,
sob a avançada gelosia!

Passo na rua e nada vejo
senão a luz, a luz e a grade.
Ó lamparina do desejo,
porque ardes tu, até tão tarde?
E às vezes surge, entre a cortina,
aquela sombra vespertina
que me retém nesta ansiedade.

Se tens trint’anos? ou cinquenta?
Quis lá saber a tua idade!
Sei que em meus olhos se impacienta
fome da luz daquela grade!
Sei que sou novo, e que me odeio
porque me tarda — ante o teu seio —
queimar tão pobre mocidade!

David Mourão-Ferreira, in «Os quatro cantos do tempo»

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