Por Gustavo Martins-Coelho

A findar Segunda-feira, 8 de Agosto de 2005. Depois das aventuras ferroviárias à saída de Amesterdão [1], último trajecto do dia, entre Mastrique e Lieja, reservava-nos mais um episódio não menos mirabolante: estávamos nós sossegadinhos, quase a dormir, quando irromperam carruagem adentro — primeiro a mulher, depois o homem e, no fim, a discussão. Nunca saberemos o motivo de tal desaguisado. O que sabemos é que as vozes se deviam ouvir no comboio inteiro!…

O engano na linha custou-nos uma hora de atraso, que implicou chegar muito tarde a Lieja. A somar à fadiga de quem andava já havia treze dias em viagem, que nos fez perder a vontade de ir a essas horas procurar a pousada, e à mais que provável perda da reserva (pelo que não tínhamos sequer a certeza de que, mesmo que conseguíssemos encontrar a pousada, teríamos uma cama à nossa espera), tudo isto nos levou a decidir procurar uma alternativa. Deste modo, sondámos os hotéis da praça da estação e abancámos no mais baratinho, que só foi três euros mais caro do que a pousada teria sido.

Terça-feira, 9 de Agosto de 2005. O dia dividiu-se por três países: começámos no país do chocolate, continuámos no país dos Portugueses (mas não é Portugal) e terminámos no país das baguetes.

A visita a Lieja foi curta, mas deu para fazer o essencial, que é como quem diz — comprar os famosos chocolates belgas. Saímos do hotel animados, apanhámos o autocarro e fomos até ao centro. A primeira paragem do percurso turístico foi na Catedral de S. Paulo, que tem os tectos pintados e os arcos em ogiva dourados. Seguimos para a Praça St. Lambert, onde fica o majestoso Palácio dos Príncipes Bispos, assim chamado porque o rei valão deu ao bispo de Lieja o poder administrativo sobre a região. Assim, o bispo era simultaneamente príncipe — e o seu palácio passou a ser tanto o paço real como o episcopal. Depois de ver o dito Palácio, partimos em busca do chocolate. No entanto, ele estava bem escondido, de tal forma que, depois de percorrermos todo o centro, sem sucesso, quase ponderámos desisir. Foi então, já em desespero e como último recurso, que o Guê se lembrou de perguntar a um taxista (porque os taxistas costumam conhecer bem a cidade) onde poderíamos encontrar o afamado chocolate. O taxista indicou-nos o nome da loja, mas não soube dizer-nos o caminho para a mesma. Prestável, o senhor preparava-se para interrogar, via rádio, os colegas sobre a localização da tal loja, quando um terceiro transeunte que passava, ao ouvir o nome da marca de chocolate, nos indicou o caminho, apontando para o anúncio sobre a porta da loja, mesmo dez metros à nossa frente. Foi então que, feliz e contente, o Tê comprou uma grande caixa dos mais finos bombons belgas. O seu único receio era que derretessem na viagem!

Uma vez comprados os chocolates, apanhámos o autocarro em sentido inverso, levantámos as bagagens no hotel e partimos em direcção à cidade do Luxemburgo, no Luxemburgo, onde nos sentimos em casa, pois o Português era a língua mais falada nas ruas, a «Maria» a revista mais lida e a «verde-e-vermelha» a bandeira mais vendida.

A nossa visita à cidade começou no Caminho da Cornija, «a varanda mais bonita da Europa». A vista era tirada dum conto de fadas: lá em baixo, a vila de Grund estendia-se pelas margens do rio Alzette, com as suas casas de telhados pretos e torres redondas, de cujas janelas nos não surpreenderia ver escorregar os cabelos da Rapunzel. Vimos também as Casemates du Bock e virámos em seguida para a Avenida Victor Thorn, ao longo da qual continuámos a observar a paisagem do vale do rio Alzette. Ao fundo, impunha-se o aço vermelho do tabuleiro e dos pilares da Ponte da Grã-Duquesa Carlota, o símbolo da CECA [2]. Virámos de novo para o centro da cidade, onde pudemos apreciar a fachada do Palácio dos Grão-Duques, na verdade um pouco atravancada, na estreita Rua do Mercado dos Cereais. Continuámos então o passeio pela Praça Guilherme II (onde — finalmente — conseguimos levantar dinheiro, já que, até aí, todas as caixas automáticas que tentáramos desde a estação nos haviam recusado os cartões), percorremos o Planalto do Espírito Santo e entrámos na Catedral de Nossa Senhora, cuja parte principal data do século XVII, misturando elementos góticos, renascentistas e barrocos, e à qual foi acrescentado o coro durante o século XX. É de notar ainda a existência duma outra capela na cripta, onde a missa é rezada em Português. Finalmente, parámos na Praça da Constituição, onde apreciámos a ravina do rio Pétrusse e os jardins circundantes. Ao fundo, via-se ainda a Ponte Adolfo.

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