Por Jarrett Walker [a]

À medida que os grandes défices orçamentais varreram toda a América do Norte, os operadores de transporte colectivo fizeram todo o tipo de alterações, para equilibrar o orçamento. A Tri-Met de Portland tentou começar por cortar serviços de baixa procura, mas, à medida que as vacas magras [2] continuam a debandada, finalmente tiveram de cortar algo que deve preocupar todos os urbanistas. Cortaram a rede frequente, o serviço desenhado para atender às necessidades das pessoas que querem deslocar-se pela cidade com facilidade durante todo o dia, com espontaneidade e uma sensação de liberdade pessoal.

A Tri-Met foi um dos primeiros operadores norte-americanos a definir e a promover uma rede frequente [3], uma forma clara dos passageiros identificarem as principais linhas, onde um autocarro ou comboio está sempre a passar. Na altura, eles definiram a rede como tendo frequências não inferiores a cada quinze minutos durante todo o dia, todos os dias, publicaram um diagrama simples da rede (imagem acima; clique para aumentar) e destacaram-na também nos outros mapas da rede. Um dos temas do meu trabalho profissional tem sido incentivar outros operadores a seguirem o seu exemplo. Aos poucos, a ideia tem-se espalhado, de Mineápolis [4] para Los Angeles [5] e Adelaide [6]; os fabricantes de mapas privados também têm pegado no tema [7]. Los Angeles elevou a fasquia: a sua rede frequente é chamada «a rede dos doze minutos», porque tem essa frequência, ou melhor, durante todo o dia.

Agora, o padrão de quinze minutos de Portland está a deslizar para os dezassete, às vezes dezoito e às vezes até vinte minutos.

No grande livro infantil de Norton Juster «The phantom tollbooth», um louco espalhafatoso chamado Humbug tinha o hábito de responder a todas as perguntas gritando:

— Dezassete!

É um número engraçado. Como a maioria dos números primos, o dezassete transporta um leve sopro de absurdo e subversão, expressos mais directamente na impossibilidade de fazer qualquer aritmética mental com esse número.

Memorizar o horário é somente o problema mais óbvio. O leitor consegue lembrar-se do horário dum serviço a cada quinze minutos? É fácil. Tudo que eu tenho de saber é o primeiro tempo de partida da hora — digamos aos cinco minutos — e daí posso achar o horário completo sempre que precisar dele; e é o mesmo a cada hora. Se eu sei que o serviço sai à 1h05, também sei que sai às 2h50 e 3h35. Agora, experimente isso com um serviço que passa a cada dezassete minutos.

A Tri-Met não é a primeira agência a namoriscar o número dezassete, nem é esta a primeira vez que o faz. Na verdade, eu lembro-me de trabalhar no seu departamento de planeamento, a fazer cortes nos serviços, em 1984. Nós falámos sobre esta mesma possibilidade, estremecemos ante a perspectiva de pedir às pessoas para contar de dezassete em dezassete e pusemo-la de lado. E nós certamente esperávamos que, numa cidade tão amiga do transporte colectivo como Portland, a geração seguinte estivesse lutando batalhas diferentes. Nós queríamos dizer:

— Filho, nós dividimos por dezassete, para que tu nunca o tenhas de fazer.

A Tri-Met fez o que podia com o que tinha  e os seus responsáveis fizeram o que podiam para evitar este momento, mas aqui chegámos. Este é o facto. Na rede em grelha que cobre as partes mais densas de Portland, os grandes eixos de transporte colectivo terão em breve uma frequência inferior à de há 25 anos, embora a população do centro da cidade servida tenha crescido enormemente nesse período. Como pôde o auto-proclamado paraíso americano do transporte colectivo deixar isso acontecer?


Nota:

a: Este artigo foi traduzido do original [1] pelo editor chefe (n. do T.).

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