Por Jarrett Walker [a]

Quando uma rede de transporte colectivo cresceu cumulativamente ao longo de décadas, mas nunca foi revista a partir do zero, pode conter uma enorme quantidade de desperdício. A reforma cuidadosa é a chave para desvendar esse desperdício e gerar vasta nova mobilidade de transporte colectivo. O nosso plano para Auckland, na Nova Zelândia (nosso, porque eu liderei o trabalho intensivo de desenho da rede, com uma equipa excelente de peritos da Auckland Transport e os meus colegas da MRCagney [2]), é um exemplo paradigmático do que pode ser alcançado.

Se o leitor pretende deslocar-se em Auckland, a qualquer hora do dia, sem ter de esperar muito pelo serviço, eis aonde pode ir com a rede de hoje:

De acordo com o plano proposto, cuja operação não custa mais do que o existente, eis aonde pode ir, a qualquer hora do dia, sem ter de esperar muito pelo serviço:

A rede continua a cobrir todas as zonas da cidade que são cobertas agora e garante capacidade para os passageiros da hora de ponta em direcção à cidade. Mas, entretanto, define uma extensa rede de serviços de alta frequência em torno da qual o crescimento urbano futuro pode organizar-se, para garantir que, ao longo do tempo, mais e mais cidade acha o transporte público conveniente.

Qual é o truque? Apenas o geometricamente inevitável [3]: mais pessoas terão de fazer transbordo dum serviço para outro e o sistema de tarifas terá de estimular isso, em vez de penalizar.

Sempre que alguém lhe diz que é muito caro ou difícil encorajar as pessoas a fazer transbordo, pergunte-lhes qual o custo de servir a primeira rede acima, pagando o preço da segunda. As redes que são desenhadas para impedir os transbordos têm de fazer circular grandes volumes de autocarros meio vazios, ou mesmo a um quarto da capacidade, e mesmo assim têm dificuldade em atingir frequências que tornem útil a espera pelo serviço. O desperdício envolvido pode ser colossal, como se pode ver pela quantidade de serviço que fomos capazes de recolocar de maneiras mais úteis com esta reforma.

Para ver um pouco da estrutura mais claramente (e também porque é um desenho fixe), aqui fica a porção central do desenho da rede frequente proposta, pelo meu colega da MRCagney Nicolas Reid. Foi divulgado pela comunicação social em Auckland [4], ajudando as pessoas a avaliar o plano. Ao geometrizá-lo, chamamos a atenção para a lógica da rede — uma lógica a que, às vezes, é fácil perder o rasto, quando se seguem os detalhes de cada viragem à direita e à esquerda.

Estou muito orgulhoso do que a nossa equipa conseguiu, trabalhando com os excelentes profissionais da Auckland Transport, e espero que o plano seja melhorado com o contributo do público, como sempre acontece aos bons planos. Mas, à medida que os habitantes começarem a discutir o plano, espero que eles mantenham o foco sobre a questão central: estão dispostos a mudar dum veículo para outro, com uma pequena espera numa instalação civilizada, se esta for a chave para expandir substancialmente a vossa rede de transporte colectivo, sem aumentar o subsídio?

Essa é a verdadeira questão com que Auckland se depara agora. O resto são detalhes.


Nota:

a: Este artigo foi traduzido do original [1] pelo editor chefe (n. do T.).

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