Por Gustavo Martins-Coelho

Hoje, vamos ver o método científico [1] em acção, a propósito da segurança em casa. Não me refiro à segurança contra incêndios, ou assaltos; falo antes da nossa segurança em casa.

A nossa casa é, para cada um de nós, o porto seguro, o local onde nos sentimos mais confortáveis e protegidos. Mas aquilo de que a maioria de nós não se dá conta é de que a nossa casa é também uma fonte de perigos, que podem colocar em risco a nossa integridade física, a nossa saúde e até a nossa vida.

Concretamente, o tema de hoje são as quedas, que são a causa principal de lesões nos idosos. Além das dores e do transtorno duma ida ao serviço de urgência, as quedas resultam frequentemente em lesões cerebrais (veja-se o caso da Maria Barroso, falecida no ano passado, na sequência duma queda em casa [2]), mas também em fracturas da anca e dificuldades de locomoção, ou mesmo imobilização total. A pior parte é que muitas das quedas acontecem em casa, pelo que a sensação de segurança que temos no lar é, muitas vezes, falsa ou, pelo menos, exagerada.

As boas notícias são que a maioria das quedas pode ser prevenida; e é aqui que entra o método científico [1]. Em 2014, um grupo de investigadores neozelandeses, bem nos antípodas de Portugal, resolveu aplicar então o método científico à questão de que temos vindo a falar, começando pela observação: esse grupo de investigadores observou que, numa década, houve quase 163.000 hospitalizações, na Nova Zelândia, por causa de quedas e que estas representavam quase metade de todas as hospitalizações por lesões acidentais; e observaram também que mais dum terço dessas quedas aconteceram em casa; e que, no caso das crianças, mais de metade das quedas acontece em casa. Esta observação suscitou, então, uma interrogação: «por que caem as pessoas em casa?» e a formulação duma hipótese, que tenta responder a essa interrogação: «as pessoas caem em casa, porque existem lá objectos e estruturas que são perigosos». Esta resposta gerou então a seguinte previsão, ou hipótese de trabalho: «se nós modificarmos ou eliminarmos essas fontes de perigo, esses objectos perigosos em casa, nós conseguimos fazer com que as pessoas caiam menos», o que é positivo. Seguiu-se a experimentação: os investigadores neo-zelandeses convidaram 842 famílias, cada uma com a sua casa, a participarem num estudo, que durou três anos, e dividiram-nas em dois grupos, mais ou menos metade em cada um, ao acaso. A um dos grupos, fizeram obras em casa, para eliminar aqueles que eles julgavam ser os perigos, que causavam as quedas em casa. Às casas do outro grupo, não fizeram quaisquer alterações. Em que resultou esta experiência? Resultou que o grupo das famílias que tiveram obras em casa, para eliminar as fontes de perigo, teve menos 26 % de quedas por ano. Ou seja, confirmou-se a hipótese: quando modificamos ou eliminamos as fontes de perigo em casa, conseguimos prevenir cerca de um quarto das quedas domésticas [3].

Então, quais foram as modificações que os investigadores experimentaram em casa das pessoas e que produziram estes bons resultados?

Corrimãos

Habitualmente, todas as escadas têm corrimãos. Mas, naquelas em que faltam, ou noutras divisões onde se sinta que um apoio extra poderia dar jeito, a instalação dum corrimão é uma forma não muito cara de prevenir quedas.

Barras de apoio

As barras de apoio servem para instalar nos chuveiros, nas banheiras e junto às sanitas. As barras que são cravadas na parede são preferíveis àquelas que se colam aos azulejos com ventosas.

Melhorar a iluminação

A iluminação fraca pode provocar quedas, porque uma pessoa não vê para onde vai. Assim, é importante ter uma iluminação adequada em todas as escadarias, nos corredores e nos passeios no exterior. Aliás, para o exterior, uma solução barata é usar iluminação alimentada pela energia solar: não é preciso mexer na instalação eléctrica, nem aumenta a conta da luz.

Deve também instalar-se luzes de presença nos espaços onde é provável que nos desloquemos à noite, como, por exemplo, os corredores entre o quarto de dormir e o quarto-de-banho. Inclusivamente, há luzes que só ligam quando detectam movimento, o que é mais barato e amigo do ambiente.

Tapetes e passadeiras antiderrapantes

Os tapetes antiderrapantes devem ser usados no chão do quarto-de-banho e nas escadarias exteriores.

Reparar os degraus e o soalho

Os degraus danificados, pedaços de carpete solta ou pedaços de soalho soltos são terreno instável, que é mais propenso a tropeços e quedas.

Outras pequenas alterações

Há mais algumas pequenas coisas a fazer: eliminar todos os pequenos obstáculos que se vão acumulando no chão, tais como livros, revistas e fios eléctricos; dispor a mobília de modo a facilitar a passagem, sem lhe darmos encontrões; prender os tapetes ao chão, colocando fita adesiva, daquela que adere dos dois lados, nos cantos; retirar os tapetes mais pequenos (que são uma das causas mais comuns de quedas; e substituir todas as lâmpadas fundidas, de modo que a iluminação seja sempre adequada.

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