Por Satoshi Kanazawa [a]

Não faltam equívocos sobre a natureza e a prática da ciência; e são, às vezes, mantidos por cientistas no activo e doutra forma respeitáveis. Eu desacreditei alguns deles (equívocos, não cientistas) em artigos anteriores (por exemplo, que a beleza está nos olhos de quem a vê [2], que quem vê caras não vê corações [3], e que não se pode julgar um livro pela capa [4]). Infelizmente, existem muitos outros equívocos sobre a ciência. Um dos equívocos mais comuns diz respeito às chamadas «provas científicas». Ao contrário da crença popular, não existe uma prova científica.

A prova existe apenas na matemática e na lógica, não na ciência. A matemática e lógica são ambas sistemas fechados e auto-suficientes de proposições, quanto a ciência é empírica e lida com a natureza, tal como ela existe. O principal critério e padrão de avaliação duma teoria científica são dados ou indícios, não provas. Considerando tudo o resto igual (por exemplo, a consistência lógica interna e a parcimónia), os cientistas preferem teorias para as quais existem mais e melhores indícios a teorias para as quais há menos e piores dados. As provas não são a moeda da ciência.

As provas têm duas características que não existem em ciência: elas são definitivas e são binárias. Assim que um teorema é provado, será verdade para sempre e nada o ameaçará, no futuro, o seu estatuto como teorema provado (a menos que seja descoberto um erro na prova). Para além da descoberta dum erro, um teorema provado será para sempre um teorema provado.

Pelo contrário, todo o conhecimento científico é experimental e provisório; e nada é definitivo. Não existe conhecimento definitivamente comprovado em ciência. A teoria actualmente aceite sobre um fenómeno é simplesmente a melhor explicação para o mesmo, entre todas as alternativas disponíveis. O seu estatuto como teoria aceite depende de que outras teorias estão disponíveis e pode mudar amanhã de repente, se aparecer uma teoria melhor, ou novos indícios, que possam desafiar a teoria aceite. Nenhum conhecimento ou teoria (que incorpore o conhecimento científico) é definitivo. Isso, por sinal, é a razão por que a ciência é tão divertida.

Além disso, as provas, tal como a gravidez, são binárias; uma proposição matemática ou é provada (caso em que se torna um teorema) ou não (caso em que continua a ser uma conjectura, até que seja provada). Não há meio termo. Um teorema não pode estar como que provado, ou quase provado. Isto é o mesmo que não estar provado.

Por seu turno, não existe uma tal avaliação binária das teorias científicas. As teorias científicas não são nem absolutamente falsas, nem absolutamente verdadeiras. Elas estão sempre entre esses dois extremos. Algumas teorias são melhores, mais credíveis e mais aceites do que outras. Há sempre mais indícios, mais credíveis e melhores, para certas teorias do que para outras. É uma questão de mais ou menos, não de «ou». Por exemplo, os dados experimentais são melhores e mais credível do que os dados de correlação, mas mesmo os primeiros não conseguem provar uma teoria; eles só fornecem um apoio muito forte à teoria e contra as suas alternativas.

O conhecimento que não existe prova científica deve dar ao leitor uma maneira muito fácil de distinguir os cientistas reais dos aspirantes e intrujões. Os verdadeiros cientistas nunca use as palavras «prova científica», porque sabem que não existe tal coisa. Qualquer pessoa que use as palavras «prova», «provar» e «provado» no seu discurso sobre a ciência não é um verdadeiro cientista.

Os criacionistas e outros críticos da evolução estão absolutamente certos, quando salientam que a evolução é «apenas uma teoria» e não está «provada». O que eles esquecem de mencionar é que tudo, em ciência, é apenas uma teoria e nunca está provado. Ao contrário do teorema dos números primos, que será absoluta e eternamente verdade, ainda é possível, embora muito, muito, muito, muito, muito improvável, que a teoria da evolução pela selecção natural e sexual possa um dia vir a ser considerada falsa. Mas, novamente, é também possível, embora muito, muito, muito, muito, muito improvável, que haja macacos a voar no meu rabo amanhã. Na minha opinião, ambos os eventos são igualmente prováveis.


Nota:

a: Este artigo foi traduzido do original [1] pelo editor chefe (n. do T.).

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