Por Jarrett Walker [a]

National Geographic abre um dos seus trabalhos sobre desertos alimentares com este mapa de Houston, que mostra onde grandes números de pessoas que não têm carro vivem a mais de 800 metros duma mercearia.

2016021900«O transporte público pode não preencher a lacuna», diz o artigo, mas às vezes até pode. O artigo não mencionou o facto, mas a nova rede da Houston Metro [2] realmente liberta muitas pessoas (não todas, claro) do problema do «deserto alimentar».

Uma coisa é certa: quando estamos a falar de viagens de recados, tais como compras domésticas, a maioria das pessoas não tem muito tempo. Se há uma fila na caixa do supermercado que o faz perder o autocarro, que só passa de hora em hora, é melhor que não tenha comprado coisas que precisem de refrigeração e definitivamente nada congelado. Então, como sempre, frequência é liberdade.

Então, se um passageiro precisa de frequência, o anterior sistema de transporte colectivo de Houston está basicamente disposto a levá-lo ao centro, mas não é provável que esse seja o caminho para o supermercado mais próximo. Eis a rede frequente antiga:

É radial, boa para ir ao centro, mas não para muitos outros fins. Com sorte, é capaz de passar por um supermercado, mas é bem provável que não os mais próximos do leitor. Além de que, claro, o leitor pode não estar perto desta rede, de todo.

Eis a rede frequente reinventada:

Comparemos isto com o mapa do deserto alimentar. Muitas das áreas de preocupação, especialmente aqueles Sudeste e Sudoeste, têm uma rede muito mais rica, num padrão em grelha. O padrão em grelha significa pronto acesso a muitas zonas comerciais em todas as partes da cidade e não só para os principais destinos da região. E, claro, uma parcela muito maior das áreas de «deserto alimentar» é coberta por esta rede, de modo que os habitantes podem fazer as compras numa hora, em vez de precisarem de toda a tarde.

Outro aspecto crucial da grelha é que, por correr em todas as direcções, corta através das divisões socioeconómicas. As pessoas de baixo rendimento podem sair dos seus enclaves e chegar tanto a postos de trabalho como a serviços comerciais em áreas mais prósperas da vizinhança. Isso assusta algumas pessoas no lado rico destas divisões, mas é uma das maneiras básicas pelas quais o bom transporte colectivo é de grande utilidade na criação de caminhos para sair da pobreza. Lembre-se: a maioria das pessoas de baixo rendimento está ocupada. Eles têm de ser frugais com o tempo e com o dinheiro!

Nem todos os «desertos alimentares» podem ser curados com o transporte colectivo. Algumas das áreas destacadas no mapa do deserto alimentar estão a Noroeste e Nordeste, fora da via de cintura 610. As casas baratas nesta área assumem muitas formas, mas muitas delas são semi-rurais e o ambiente construído é frequentemente muito hostil tanto para os peões como para a criação de linhas de transporte colectivo eficiente. A população dalgumas dessas áreas também está em declínio. O nosso plano tenta oferecer algumas opções nessas áreas, mas o transporte colectivo não é a principal solução para o problema do deserto alimentar aí.

Mas, numa parte muito diversificada de Houston, a forma de fazer chegar as pessoas de baixo rendimento a alimentos saudáveis ​​é a mesma forma por que se conseguem tantos outros benefícios ambientais, económicos e sociais: um sistema de transporte colectivo frequente abundante, num padrão em grelha, que abranja todas as partes da cidade que são suficientemente densas para o suportar.


Nota:

a: Este artigo foi traduzido do original [1] pelo editor chefe (n. do T.).

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