Por Diana Martins Correia

Cara destinatária desta carta,

Bem sei que sentes muitas vezes que algo está errado contigo e que devias ser mais como os outros: divertires-te como toda a gente se diverte, ser extrovertida e socializar tanto quanto possível. Mas a verdade é que gostas do silêncio e do tempo que passas sozinha. Aliás, prezas muito essas horas sem ninguém que te perturbe, passadas apenas (e chegam-te bem) com os teus pensamentos. Talvez sintas, por essa razão, que, quando recusas tantos convites para sair, porque preferes ficar no teu canto a ler ou a escrever, ou a tentar perceber o mundo nas suas diversas formas de expressão, os outros te vejam como estranha e anti-social, porque não te comportas como o que é esperado de alguém que vive nos dias de hoje: ver e ser visto, opinar e julgar — quanto mais, melhor. Se possível, até, perfeito.

Não fico surpreendida quando me dizes que o ruído exterior consome a tua energia e que a preferes gastar com o que te assalta a curiosidade e com o impulso para saberes mais e mais do mundo, como que para encontrar a verdade das coisas e o seu significado. Cada nova descoberta ou cada novo encontro de sabedoria é o que te alimenta. És idealista e perfeccionista, num mundo guiado pelo imediatismo e pela valorização de si, para si, em si, raramente nos outros. Lutas apaixonadamente por uma causa quando acreditas que ela fará do mundo um lugar melhor para todos, mesmo que a maioria acredite que há quem não deva ter o direito à felicidade, por ser diferente do normativo. Lutas e indignas-te profundamente quando esse direito não é garantido. Reivindicas e emocionas-te quando esse direito é conquistado. A verdade é que há quem não entenda a importância que dás a estas coisas. Por que perder tempo com causas que nem sequer te dizem respeito directamente? Por que não te preocupas apenas contigo?

Cuidas dos teus queridos livros como não cuidas do teu guarda-roupa. Aliás, fazes um esforço para dares ouvidos aos teus pais e não andares «mal vestida». Como os teus (poucos mas preciosos) amigos te conhecem bem, não te chateiam com isso, porque também eles são como tu. São eles e a tua família as relações que mais valorizas na tua vida, para o bem e para o mal.

Por outro lado, pessoas como tu colocam padrões muito elevados na sua forma de ser e de agir. São os mais duros consigo mesmos, são os piores críticos de si quando se desiludem a si próprios e não se dão crédito suficiente, além de se culparem demais.

Cara destinatária desta carta, sabes uma coisa? O mundo também tem um lugar para as pessoas caladas, idealistas, introvertidas e desleixadas com aquela nódoa no casaco de inverno. Também elas são necessárias e nada há de errado em ser assim. És sensível e perspicaz sobre o que os outros sentem, és leal aos que te rodeiam, és capaz de apreender e atender às necessidades dos outros. És uma óptima ouvinte e conselheira, causando sentimentos de carinho e bem-estar nos outros, porque estás lá para eles e com eles.

Repito: não há nada de errado em ser assim. Por isso, valoriza-te.

D.

Anúncios