Por Gustavo Martins-Coelho [a]

Na segunda metade do século passado, enquanto, na Europa, a social-democracia e o socialismo democrático tinha por referenciais a liberdade individual, o pluralismo político, a economia de mercado e a solidariedade social, em Portugal, a ditadura salazarista condenava até os democratas mais moderados à clandestinidade (o próprio Francisco Sá Carneiro teve de admitir o fracasso, abandonando a Assembleia Nacional) e as farsas eleitorais eram tão bem controladas que nunca a oposição conseguiu fazer eleger um único deputado!

Em democracia, a transparência é indispensável, para garantir a prestação de contas e a responsabilidade política perante os eleitores. Mas, quando o governo anterior celebrou «o regresso aos mercados», como uma façanha capaz de camuflar a inépcia com que a crise do euro tem sido gerida a nível europeu, olhámos para um mero interlúdio, a demonstração flagrante duma forma perversa de governar, que sistematicamente esconde a substância da própria governação. Foi a governação a «passar à clandestinidade»!

É urgente construir a alternativa, com reformas concretas do Estado, com a reabilitação do sistema político, com o estímulo à economia, mas também pela prática duma cultura de transparência, que reconcilie os eleitores com a política e justifique a confiança na democracia.


Nota:

a: Este artigo é um resumo do texto original do Pedro Bacelar de Vasconcelos, publicado no «Jornal de Notícias» [1].

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