Por Gustavo Martins-Coelho

Já foi há cerca de um mês que decorreu, em Lisboa, o seminário «Consumo de leite e lacticínios — o que pode estar a mudar» [1], no qual estiveram presentes especialistas médicos, nutricionistas, engenheiros, economistas e farmacêuticos, debatendo temas relacionados com o mercado e o consumo de leite e dos seus derivados, bem como as alternativas à base de soja. Já foi há um mês, mas, como já tinha na calha outros temas para as últimas crónicas [2, 3, 4, 5, 6, 7], alguns já planeados há longa data, e também porque o assunto não perde actualidade de então para agora, vou hoje abordar, em particular, o aspecto da intolerância à lactose, de que tanto se fala hoje em dia.

A endocrinologista Isabel do Carmo, que participou no seminário fazendo «O elogio do leite» [8], afirmou à comunicação social que a «intolerância à lactose é uma moda, para a qual não existe qualquer fundamento científico, e que resulta da influência da indústria de produção de soja» [9]. Como todas as frases proferidas para gerar impacto, está no limite entre a verdade e o exagero. Vamos aos factos…

Em tempos, o Carlos Lima [10] explicou o que são os hidratos de carbono [11] e o seu papel no fornecimento de energia ao organismo; e começou por explicar que existem três açúcares simples principais: a glicose, a frutose, e a galactose. Explicou também que estes açúcares simples se podem combinar em moléculas complexas — e a lactose é uma dessas moléculas. Finalmente, ele disse também que, durante a digestão, os açúcares compostos são convertidos em açúcares simples. Essa conversão dá-se por acção de enzimas (proteínas que ajudam à ocorrência de diversas reacções no corpo, com custos energéticos mínimos) [12]. Uma dessas enzimas, chamada lactase, é responsável, precisamente, por converter um açúcar composto, a lactose, nos seus elementos básicos: glicose e galactose.

Todas as crianças têm lactase no seu tubo digestivo [13], pois precisam dela para digerir o leite materno, mas, como a evolução tende a fazer os organismos adaptarem-se cada vez melhor ao seu ambiente e como, no ambiente natural, os adultos não consomem leite, a concentração de lactase no suco intestinal tende a reduzir-se com a idade e, com ela, reduz-se a capacidade de digerir a lactose.

A intolerância à lactose é, então, o resultado da incapacidade de digerir a lactose, transformado-a em glicose e galactose, devida à falta duma enzima chamada lactase. Os sintomas incluem, sobretudo, fezes moles, gases e dores abdominais. Tenho alguma dificuldade em classificar a intolerância à lactose como uma doença; é mais uma variação do normal, muito rara nas crianças, sendo mais frequente nos adultos. Mas, mesmo assim, no caso dos Europeus, atinge apenas um quarto da população, enquanto, noutras raças, chega a atingir os 90 %. Não há qualquer indicação de que a sua frequência na população esteja a aumentar, bem pelo contrário, pelo que não se justifica que o consumo de leite e derivados esteja a decrescer. Particularmente, não se justifica que abandonemos ou reduzamos o consumo de derivados do leite, tais como o iogurte ou o queijo, mesmo no caso das pessoas que sofrem de intolerância à lactose — porque os derivados do leite não contêm lactose!

Além disso, a intolerância à lactose, salvo casos muito raros, congénitos, não se manifesta antes dos 20–40 anos de idade, pelo que qualquer pessoa pode e deve consumir leite, mesmo que venha a sofrer de intolerância à lactose, pois o leite tem um valor nutricional como nenhum outro, sendo um alimento completo para crianças e quase completo para o adulto.

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