Por Hélder Oliveira Coelho

«Fundamentalista» é uma palavra que não consta do meu dicionário. A culpa é certamente minha. O dicionário que me acompanha data de 1987. O famoso laranja da Porto Editora, na sua 6.ª edição. Cresci com ele e, como tudo o que nos acompanha no crescimento, recusamos a aceitar que possa já não estar actualizado. É como admitir que o Pai Natal não existe. Um verdadeiro golpe na nossa fé. Voltando ao dicionário, importa dizer que abre o rol dos seus colaboradores com Dr. Abílio Alves Bonito Perfeito, licenciado em Filologia Clássica, professor efectivo do ensino secundário. Em bom rigor, recordo-o, porque foi mais que isso. Trata-se, pois, do último reitor do Liceu da Guarda. Saber que o dicionário que me viu fazer homem conta com a colaboração do reitor do meu liceu enche-me de alegria.

Contudo, se, nos idos anos oitenta, a palavra «fundamentalista» não tinha lugar no dicionário, é talvez importante entender a razão pela qual acontece.

Com origem no Latim, a palavra que define a base, o princípio, o começo — fundamento. Assim, fundamentalista será aquele que se apoia na base para construir algo. Dito desta maneira, feita a excepção aos que nada mais avaliam para além do superficial, parece que todos teremos algo de fundamentalista, algures guardado na nossa memória genética.

A razão que leva a que o dicionário se desactualize prende-se com a condição da língua ser mutável, como mutáveis são os signos que usamos para nomear o quotidiano e a existência. Em contraponto com o Latim ou outras línguas mortas, que por definição não evoluem, estão imutáveis e não faladas, pelo que a sua aplicação obedece aos princípios da lógica pura.

Também na mesma linha vivem um conjunto de princípios, que, apesar da volatilidade da condição humana, são transversais à nossa existência como espécie e garantem o nosso sucesso.

É a capacidade que o ser humano tem de se agregar que garante o nosso sucesso colectivo. Não quero com isto entrar em definições políticas de esquerda ou direita. Porque, divergindo elas na forma, a finalidade última é a mesma, o bem-estar do Homem.

A passo com a política, a religião congrega outro braço da discórdia e provavelmente a ela se associa, por defeito, a palavra «fundamentalista». Mas atente-se ao que a palavra latina significa! A base! Pois bem, a base da política, bem como a base da religião, são o bem-estar e o amor, respectivamente. A religião, porque se constitui como o culto ao que é superior. Nada pode ser superior ao amor. A política, que é (dito no mesmo dicionário) a arte de governar — eu acrescento: bem, governar bem. É determinante que uma conduta moral dê espartilho a estes conceitos alargados — certamente — mas, in extremis (voltando ao Latim), é nos conceitos fundamentais, na base, claro está, que devemos refugiar-nos para entender, dar sentido ao que procuramos. Pois bem, a base da política é o bem-estar do Homem, a base da religião é a condição superior, o amor.

Podia agora discorrer um tratado sobre o tema, assim eu tivesse capacidade para tal. Como não tenho, vou prender-me às coisas mundanas. Política sem honestidade, religião sem tolerância.

Para bem da primeira, aconselho vivamente a que se atente na série cómica que agora passa novamente na RTP Memória: «Sim, sr. ministro». Qualquer noticiário actual deita por terra a ficção! Para melhor esclarecimento da segunda, aconselho que se escutem as «Conversas vadias», programa que, no início dos anos noventa, contou com a sábia presença do Professor Agostinho da Silva, também disponível no mesmo canal. Para quem já não se vê sentado diante do televisor, pois bem, ambos os programas estão disponíveis no Youtube.

Farei outras crónicas, em que terei por fundamento o fundamentalismo. Porque nada há de mais divertido do que ver o caos dos palhaços no circo. A gargalhada que soltam à criançada e aos crescidos vai para lá da pantomina. É a conceptualização do ridículo que arranca o riso. Ser confrontado com o risível do extremismo é o primeiro passo para o amansar! Termino, portanto, aconselhando o mais genial monumento à guerra ao extremismo — «The great dictator» — «O grande ditador», longa-metragem de Chaplin, a tornar risível um extremista. É sim fundamental que não nos esqueçamos disso.

Para 5 de Março, dia mundial da música clássica, expressão comum para dois conceitos, a música erudita e, dentro desta, a que compreende o período do classicismo, que encaixa no século XVIII e parte do século XIX, entre os períodos barroco e romântico; como não há conceitos de amor, de belo, de bem-estar sem música; como não é possível falar de música e esquecer o período clássico — deixo-vos com o último andamento da sonata para piano n.º 11 de Mozart, também conhecida como Alla Turca ou Marcha Turca [1]. Interpretada muitas vezes separadamente, é uma das mais conhecidas peças deste compositor, composta no primeiro quartel do séc. XVIII.

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