Por Gustavo Martins-Coelho [a]

Certo dia, discutiram e ele deu-lhe uma estalada. Pediu-lhe perdão, ela chorou, tudo passou.

Ela foi despedida, ele teve problemas no trabalho. Bateu-lhe mais vezes, arrancou-lhe cabelos, abriu-lhe os lábios. Abraçou-a, um penso rápido resolve tudo.

Doía-lhe o corpo, mas ela tudo fez, para que os pais não a vissem assim.

A chegada dele a casa transia-a de medo, encolhida por fora e mirrada por dentro.

Foi ao hospital; ele ficou à espera, lá fora na escuridão; lá dentro, a vergonha.

Voltaram a casa, ele com o gelo da raiva, ela com o silêncio e o cheiro do medo.

Os vizinhos evitavam-na. Ele encheu-se de ciúmes. A mãe já sabia e queria ir à polícia.

A Joana saiu nos jornais: «marido mata mulher». Os vizinhos ouviam muitas vezes gritos, mas ele era simpático e bem-educado. Nada fazia prever.

Em 2011, foram assassinadas 27 mulheres pelos seus companheiros; 44 foram alvo de tentativas de homicídio. O número de casos de violência doméstica é muito maior e estão a aumentar os casos contra homens. Isto é insuportável numa sociedade decente; não é uma questão de género, é uma de vergonha colectiva. Não há leis que valham, perante o silêncio cúmplice de quem olha demasiado para o lado.


Nota:

a: Este artigo é um resumo do texto original do Azeredo Lopes, publicado no «Jornal de Notícias» [1].

Anúncios