Por Hugo Pinto de Abreu

Neste tempo novo da política portuguesa [1], o Governo do Partido Socialista não dispõe dum «estado de graça», por uma série de motivos evidentes: em primeiro lugar, pelo processo de formação do governo — um governo liderado pelo PS, derrotado nas eleições, com um apoio inédito por parte dos partidos da esquerda —; em segundo lugar, pelo calendário orçamental, que precipitou de imediato o governo para a elaboração e discussão do Orçamento do Estado, pelo qual tem estado sob fogo.

O supra referido processo de formação do governo demonstra à saciedade a capacidade negocial do Primeiro-Ministro António Costa, sendo uma qualidade a que terá de apelar frequentemente para navegar entre as exigências de Bruxelas e dos partidos da esquerda.

Apesar de crer que este processo negocial pode ser gerido de tal forma que o governo dure uma legislatura, creio que seria indispensável que António Costa e o PS fizessem uma reflexão séria versando sobre as razões da derrota eleitoral de 4 de Outubro de 2015, isto se quiserem gizar uma estratégia que os conduza à vitória numas próximas eleições, aconteçam estas em 2019 ou em 2017.

Pode ser tentador para a esquerda a atribuição das suas desventuras ao contexto europeu e à ortodoxia europeia dominante, ou às ligações do anterior governo com uma série de interesses económicos com poder. Mas tais explicações não abarcam a totalidade do problema.

Desde logo, o Partido Socialista Europeu faz parte e está comprometido com a ortodoxia europeia dominante; e, quanto a ligações com interesses económicos, qualquer governo se arrisca a tê-las, e os governos de José Sócrates — com os quais mais de meio país esteve deslumbrado, incluindo os jornais económicos e a intelligentsia empresarial portuguesa, que desde 2011 se tornaram os mais fiéis cães de fila do Governo PSD-CDS — tiveram-nas à saciedade.

Da minha parte, creio que a explicação se encontra bem mais na incapacidade de construir uma narrativa convincente sobre os motivos da crise que Portugal e a Europa atravessam e sobre o papel que os Portugueses podem e devem ter — enquanto cidadãos portugueses, mas porventura ainda mais como cidadãos europeus — na (re)construção do projecto europeu como um projecto civilizacional e não apenas como uma entidade de prosperidade económica comum, que aliás o é cada vez menos.

Sou economista, não preciso de que me convençam da importância (central) da prosperidade económica. Mas não acredito que a prosperidade económica possa ser uma espécie de fim último (escatológico?) da sociedade, mas apenas uma condição necessária e muito importante para a prossecução de valores e fins mais altos: educação, cultura, progresso científico e tecnológico, aprofundamento da compreensão da dignidade da pessoa humana, bem como da sua relação com os restantes seres vivos e com o ambiente.

O PS quer virar a página da austeridade. Não sei se vai — ou pode — conseguir. Por isso, preferiria que a ênfase do PS — e dos outros partidos políticos europeus, e da Europa como um todo — fosse responder a outras questões. Para que queremos virar a página da austeridade? Para que queremos políticas de crescimento? Para que queremos crescimento económico? Quais os nossos objectivos últimos, enquanto sociedade? Como podemos cumprir esses objectivos, mesmo em circunstâncias económicas mais adversas?


Conclusão

Como o leitor poderá verificar, rapidamente me afastei do tema dos desafios estratégicos dos partidos portugueses. Ou talvez não me tenha afastado e tenha, pelo contrário, apresentado aqueles que julgo serem os verdadeiros desafios.

Todavia, leio as linhas acima como um céptico perante um manifesto que parece ou aparece quase utópico. Creio que isso demonstra bem os espaços reduzidos, atrofiantes, claustrofóbicos em que a política portuguesa tem vivido e provavelmente continuará a viver.

Também isso me persuade que é hora de colocar um ponto final no «Docendo Discimus» [2], este espaço onde, desde 2013 [3], tenho partilhado reflexões da mais diversa índole com o leitor. Frequentemente, alternei as discussões de temas altamente técnicos e especializados com reflexões pessoais, ou sobre a situação política portuguesa.

Não creio que esteja em condições de continuar a oferecer reflexões interessantes nos mesmos moldes sobre qualquer desses temas, em parte devido ao quase insuportável ambiente de crispação e radicalização da política portuguesa, e, em parte ainda maior, devido às constantes, exigentes e apaixonantes solicitações que as minha actividades profissional e académica me têm reservado.

A Primavera de 2016 trará uma nova coluna — de cariz totalmente diferente — que terei o prazer de assinar, e para a qual convido desde já os estimados leitores. Por ora, cumpre colocar um ponto final no «Docendo Discimus», onde — nomem est omen e a promessa cumpriu-se! — tanto aprendi.

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