Por Gustavo Martins-Coelho [a]

Apesar das crenças feministas, as mulheres não podem ter tudo: dar prioridade à família e ter uma carreira profissional de alto nível de exigência não é, simplesmente, possível.

Sendo preciso optar, qualquer que seja a opção, a sociedade critica: ou porque se é uma mãe ausente, ou porque se abdicou duma carreira promissora em prol de estereótipos de género; e as mulheres acabam por sentir que, duma forma ou doutra, a culpa é sua. As escolhas que têm de fazer não se colocam, habitualmente, aos homens.

As mulheres estão a tomar consciência desta realidade. Falta, contudo, a consciencialização de que essa realidade não é imutável, pois depende, sobretudo, da realidade social e económica e da mentalidade das próprias mulheres.

O feminismo desenvolveu-se com a premissa de que, para atingir a igualdade, as mulheres teriam de adoptar o comportamento dos homens, abdicando do desejo de maternidade. Contudo, hoje em dia, esta premissa está desactualizada. O que falta são mulheres em posições de liderança, que introduzam uma nova visão na questão da igualdade de género, livre das meias verdades que trazemos connosco:

  • Com força de vontade, tudo se consegue. Tudo depende da vontade da mulher em ter uma carreira. Mas será que a falta de dedicação explica o afastamento das mulheres das posições de liderança política e empresarial? Quantas mulheres nessas posições têm filhos? E quantos homens em posições equivalentes têm filhos? Será que as mulheres não sonham suficientemente alto? Ou será que a obrigatoriedade do trabalho presencial, as licenças de maternidade e a incompatibilidade entre os horários escolares e os horários de trabalho são empecilhos que não se resolvem com exortações à força de vontade? É preciso que estes obstáculos sejam identificados e combatidos — individualmente, comunitariamente, empresarialmente e politicamente.
  • É possível, se se casar com a pessoa certa. Mesmo que a proposição de que as mulheres podem ter carreiras fulgurantes, se os seus maridos se ocuparem igualmente (ou ainda mais) das tarefas domésticas, esteja correcta, ela parte do princípio que as mulheres se sentem tão confortáveis longe dos filhos quanto os homens, o que, provavelmente, não é verdade: os homens tendem a preferir o emprego, em detrimento da família, enquanto as mulheres tendem a fazer a opções oposta; muito por efeito de estereótipos e pressão social, mas também por diferenças intrínsecas de género. Portanto, casar com a pessoa certa é uma condição necessária, mas não suficiente. É preciso que a sociedade aprenda a reconhecer o valor desta escolha, criando as condições para que deixe de ser uma escolha necessária.
  • É possível, se se seguir a sequência certa. Errado. Até poderia ser verdade, quando as mulheres tinham os filhos entre os 20 e os 30, os criavam até aos 40–50 e ainda iam a tempo de se dedicar a uma carreira. Hoje em dia, contudo, as pessoas casam mais tarde e ter filhos aos 20 anos dificulta os estudos universitários, mas deixar os filhos para mais tarde é um risco biológico e também prejudica a chegada ao topo da carreira. Em suma, qualquer opção envolve escolhas e equilíbrios difíceis, quando todos deveríamos poder ter uma família e uma carreira.

Mudar a cultura do trabalho presencial

Nada prejudica mais a conjugação do trabalho com a família, do que a errada mentalidade de que mais horas no trabalho significam mais produtividade. Por vezes, quando há um prazo a cumprir, tal pode ser verdade; mas, em geral, mais tempo não acrescenta valor proporcionalmente e pode levar a consequências negativas para os trabalhadores.

Além disso, nem todo o trabalho tem de ser feito no escritório. Decerto, as reuniões são mais produtivas do que os telefonemas; a confiança adquire-se mais facilmente cara a cara; e as conversas espontâneas geram boas ideias. Mas o escritório deve ser encarado como a base das operações e não o local obrigatório de trabalho, permitindo às mães darem o seu máximo, por exemplo, enquanto olham pelos filhos doentes, ou depois dos terem posto para dormir. Aliás, nem só os trabalhadores com filhos poderiam beneficiar desta flexibilidade, até porque, muitas vezes, não são só os pais que precisam de lidar com assuntos de família.

Existem obstáculos a esta mudança de visão, como, por exemplo, a confidencialidade dos dados trabalhados em casa. Mas não são obstáculos inultrapassáveis; e o maior de todos é a inércia.

Reavaliar os valores familiares

Os empregadores tendem a privilegiar as actividades extra-profissionais não relacionadas com a família. Entre dois trabalhadores que se levantam à mesma hora, um para ir correr e o outro para preparar a escola dos filhos, o patrão vai associar o primeiro a auto-disciplina e outras características positivas no que toca ao trabalho, mas não o segundo. Todavia, a auto-disciplina necessária a correr a maratona não é diferente da auto-disciplina e da capacidade de gestão do tempo necessárias a conciliar o trabalho com a família. Até a religião tem precedência sobre a família: mais facilmente aceitamos que um judeu não trabalhe o Sábado inteiro, do que uma mãe reserve uma tarde para estar com os filhos.

Redefinir a carreira profissional

Um profissional de sucesso é aquele que ascende o mais acima possível na carreira o mais rapidamente possível, idealmente antes dos 45 anos. Esta definição era adequada, quando as pessoas tinham os filhos na terceira década de vida, um emprego para a vida inteira, se reformavam aos 65 e morriam pelos setenta e poucos anos. Hoje em dia, quando a esperança de vida chega aos oitenta, é possível trabalhar até aos setenta, em diversos empregos, e se tem filhos na quarta ou quinta décadas de vida, esta definição perdeu o sentido. Uma mulher pode ter filhos até aos 45 e ascender ao topo da carreira até aos cinquenta ou sessenta anos. Mas, para isso, é preciso que as pausas na carreira, as promoções recusadas, etc. não sejam encaradas como sinais de fraqueza ou incapacidade.

Redescobrir o caminho da felicidade

A vida não se faz só de trabalho. Para além da dimensão profissional, existem componentes pessoais, sociais e familiares que devem ser identificadas e integradas. As mulheres (e não só) podem e devem assumir que a sua vida não se resume ao trabalho. É preciso redescobrir o caminho da felicidade, começando em casa.

Inovação

É fácil defender estes pontos de vista, quando se tem uma posição de poder num emprego com horário flexível. Mas — e o mundo real? Contratar um homem, que trabalha onde e quando for preciso, é preferível a contratar uma mulher, com as suas necessidades de flexibilidade, sobretudo em tempo de crise.

Contudo, o que nos diz a ciência é que aumentar a flexibilidade, tanto para os homens como para as mulheres, se correlaciona com melhor envolvimento no trabalho, maior satisfação com o mesmo, menos despedimentos e melhor saúde dos trabalhadores; além disso, empregos amigos da família atraem mais talentos, aumentando a produtividade.

Devemos deixar de contratar horas e passar a contratar serviços, dando espaço à gestão do próprio tempo e, sobretudo, à criatividade, permitindo olhar para o trabalho a partir de novos pontos de vista, pois é assim que se produz inovação. Muitas vezes, o contacto com os filhos pode abrir horizontes na resolução de problemas profissionais.

Envolver os homens

Os homens estão a juntar-se a esta causa; também eles querem conciliar as suas vidas profissionais com a paternidade. Se essa necessidade deixar de ser um exclusivo das mulheres, mais facilmente o mundo do trabalho se adaptará e satisfará as aspirações de pais e mães. Este é um assunto económico, que diz respeito a ambos os sexos.


É possível um mundo em que as mulheres no topo não sejam a excepção e não tenham tido de desistir da sua família; um mundo onde as mulheres não tenham de fingir ser homens.

A pergunta não é se as mulheres podem ter tudo. A pergunta é: como podem as mulheres e os homens viver vidas mais felizes, saudáveis e produtivas, valorizando as pessoas de quem gostam tanto quanto valorizam o sucesso que procuram.


Nota:

a: Este artigo é um resumo do texto original da Anne-Marie Slaughter, publicado na revista «The Atlantic» [1].

Advertisements