Por Gustavo Martins-Coelho [a]

Nasci em 1923, com a ajuda duma parteira com queda para a bebida, e fui posto a dormir numa gaveta, ao lado da cama da minha mãe, inconsciente da fome, do caos e da sujidade da Inglaterra desse tempo. Por milagre, sobrevivi às cólicas, à gripe, às infecções, aos ferimentos e às quedas sem o apoio do saneamento moderno, da higiene e dos cuidados de saúde.

A nossa casa não era mais do que um sítio para repousar a cabeça, depois de dez horas a retirar carvão duma mina, sem conforto nem privacidade. O chão era de ardósia, coberta por tapetes gastos, e as paredes de calcário nunca pareciam limpas. No Verão, era quente, no Outono e na Primavera húmida e no Inverno fria. Não havia electricidade e só a sala tinha iluminação a gás.

Eu partilhava o quarto com a minha irmã do meio, num colchão cheio de insectos e com o cheiro do chichi dos prévios donos. Nos meses frios, abraçávamo-nos, para partilharmos o calor corporal.

Enquanto isso, a minha irmã mais velha definhava na sala, onde havia um piano calado. Tinha tuberculose desde os quatro anos. Esta era uma doença comum, entre famílias de mineiros, devido às habitações insalubres que ocupavam. A tuberculose fez a minha irmã mais velha depender totalmente da minha mãe para comer, tomar banho e vestir-se, durante o seu último ano de vida. Nesse tempo, não havia serviço nacional de saúde: ou se tinha dinheiro, para pagar os medicamentos, ou morria-se sem tratamento. A terceira opção era o hospital dos pobres, que aceitava indigentes.

Com três anos, eu falava, às vezes, à minha irmã, mas ela não me respondia, porque a doença lhe tinha destruído as cordas vocais. Não podia verbalizar a dor de ter uma infecção a destruir-lhe a coluna vertebral e os órgãos vitais do seu corpo de dez anos. Esperava a morte, enquanto olhava para a parede. Em 1926, as suas últimas semanas foram terríveis. Chorava em silêncio e lutava com tanta ferocidade, que o meu pai teve de amarrá-la à cama, com uma corda, até decidir enviá-la para a enfermaria local, um edifício que já fora uma prisão e um orfanato, antes de encarcerar indigentes com doenças contagiosas.

Os meus pais empenharam as suas melhores roupas, para pagarem o transporte para a enfermaria e eu e a minha irmã do meio fomos despedir-nos da doente à porta. Foi a última vez que vi a minha irmã viva.

A minha família era demasiado pobre para pagar um funeral. O corpo foi enterrado numa vala comum, juntamente com uma dúzia doutras vítimas esquecidas da penúria.

Isto passou-se vinte anos antes da criação do serviço nacional de saúde britânico, o NHS. Graças a ele, pude curar a minha bronquite com antibióticos e todo o tratamento me foi prestado gratuitamente. Enquanto convalescia, dei-me conta do potencial dos cuidados de saúde gratuitos para a nossa sociedade. A criação do NHS foi uma mudança na forma como olhamos para os nossos concidadãos. Foi a compreensão de que todos somos responsáveis por todos e que os nossos impostos podem financiar não só estradas e esgotos, mas também proteger a saúde das nossas crianças, dos nossos trabalhadores e dos nossos velhos.

Os cuidados de saúde gratuitos foram a primeira pedra da estrada para o Estado do bem-estar. É difícil ouvir os políticos, orgulhosos detentores de seguros de saúde privados e de participações no capital dos hospitais privados, falar de mudanças que vão destruir o NHS. Agora, os doentes ricos podem pagar para passar à frente da fila. As clínicas privadas florescem, à sombra do NHS. O que vai acontecer, quando todos os serviços forem vendidos à melhor oferta? Termina onde começou a minha vida: num país onde a saúde depende do estatuto social. Os ricos têm seguros, que lhes pagam os cuidados adequados, enquanto o resto do povo recebe esmolas.

Às vezes, tento imaginar como explicaria à minha irmã mais velha que fomos capazes de construir esta bela estrutura na nossa sociedade — que protege os pobres — apenas para a ver ser destruída outra vez, após algumas gerações. Mas não consigo encontrar as palavras.


Nota:

a: Este artigo é um resumo do texto original do Harry Leslie Smith, publicado no jornal «The Guardian» [1].

Anúncios