Por Gustavo Martins-Coelho

Na semana passada, a propósito da intolerância à lactose [1], disse que «a evolução tende a fazer os organismos adaptarem-se cada vez melhor ao seu ambiente» e depois referi que, por esse motivo, «como, no ambiente natural, os adultos não consomem leite, a concentração de lactase no suco intestinal tende a reduzir-se com a idade e, com ela, reduz-se a capacidade de digerir a lactose.»

Entretanto, fiquei a pensar que talvez valesse a pena desenvolver e generalizar esta explicação, já não sobre a lactase e a intolerância à lactose, mas sobre os mecanismos pelos quais acontece a evolução das espécies, em geral.

A primeira coisa que é preciso perceber, para se compreender como funciona a evolução, é a ausência de finalidade. Quero com isto dizer que a evolução acontece por força das circunstâncias e não com um objectivo definido. A imagem que tradicionalmente associamos à evolução é uma sequência de figuras, em que a primeira é um macaco e a última um homem e, pelo meio, há imagens intermédias entre o macaco e o homem — macacos que se vão levantando do chão e perdendo pêlo. Esta imagem transmite a ideia de finalidade: cada geração de macacos é menos amacacada e mais humanizada, como se o objectivo da evolução fosse produzir um homem. Nada mais errado, pois, na verdade, nós não descendemos do macaco! Quem diz isso nada percebe de evolução!

Os humanos, os chimpanzés e os bonobos descendem todos dum mesmo animal, que não era igual a nenhuma das espécies actualmente existentes, embora tivesse traços comuns com todas. Chama-se a isto um ancestral comum: uma espécie que deu origem a duas espécies diferentes — e é disto que se faz a evolução. Esse ancestral comum de humanos e chimpanzés tem, por sua vez, um ancestral comum com os gorilas; o ancestral comum dos gorilas e do ancestral comum dos humanos tem um ancestral comum com o orangotango, etc., etc.

Mas voltemos ao ancestral comum dos humanos e dos chimpanzés. Se houvesse uma finalidade na evolução, se o ser humano fosse o «arquétipo da perfeição, o pináculo da criação», como canta o Miguel Araújo [2], o tal ancestral comum, que alguns cientistas acreditam chamar-se Sahelanthropus tchadensis e ter vivido há cerca de sete milhões de anos, a Sul do deserto do Sara [3], esse ancestral comum não seria comum: teria evoluído somente no sentido de se tornar humano e não existiriam chimpanzés. A existência de chimpanzés só é possível, por não haver finalidade na evolução e, portanto, alguns Sahelanthropus vieram a dar origem à nossa espécie, outros deram origem a ramos que chegaram aos chimpanzés, e outros ainda deram origem a espécies que, entretanto, se extinguiram e não existem, actualmente, na Terra.

Então, se não há uma finalidade na evolução, por que existe e como se processa? Creio que o primeiro conceito a apresentar, para se compreender a evolução, é o de hereditariedade: «a passagem de traços característicos duma geração à seguinte, ou seja, de pais para filhos» [4]. O exemplo mais comum de hereditariedade é a cor dos olhos, mas há muitas outras características que se transmitem dos pais para os filhos. Estas características são codificadas nos genes; ao conjunto de todos os genes dum organismo, chama-se genoma [5]; aos traços que são controlados por genes e portanto hereditários, chama-se genótipo; e, ao conjunto de traços que constituem todas as características de cada indivíduo, chama-se fenótipo. O fenótipo resulta da interacção entre o genótipo e o ambiente, pelo que uma grande parte do fenótipo não é hereditária. Um bom exemplo da distinção entre genótipo e fenótipo é o bronzeado da pele, que surge quando esta é agredida pelos raios ultravioleta [6]. Um pai bronzeado não vai fazer o filho nascer bronzeado, mas pode passar-lhe a característica genética que o faz ficar bronzeado com facilidade, sendo necessário que o ambiente — neste caso, o sol — estimule o genótipo a produzir melanina.

O segundo conceito é o de variação e falaremos dele para a semana…

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