Por Jarrett Walker [a]

2016030400Pode a ciência explicar por que alguns mapas do sistema de transporte colectivo são muito melhores do que outros? O Alex Hutchinson tem um excelente artigo na revista canadiana «The Walrus» [2], sobre como a dependência crescente dos sistemas de posicionamento global (GPS) para as deslocações pode estar a remodelar nossos cérebros. Poderá isso estar relacionado com a dificuldade de obter bons mapas dum sistema de transporte colectivo?

Os seres humanos têm dois métodos de navegação. Os navegadores espaciais conseguem construir mapas na cabeça, quando observam um lugar, e também tendem a ser bons no que toca a usar mapas como ajudas à navegação. Os navegadores narrativos navegam criando ou seguindo instruções verbais. Para os navegadores espaciais, a resposta à pergunta onde? é uma posição mapeada no espaço. Para os navegadores narrativos, a resposta à mesma pergunta é uma história sobre como chegar lá. Obviamente, este é um espectro; muitos de nós estamos no meio, com capacidades parciais em ambos os sentidos. Julgo que todos nós provavelmente sabemos disso por experiência própria, mas, de acordo com o artigo referido, o estudo académico definitivo mostrando essa diferença tem a data surpreendentemente recente de 2003.

Os motoristas de táxi, obviamente, têm de ser navegadores espaciais, porque têm de traçar constantemente percursos para viagens que nunca fizeram antes. Antes do advento do GPS, esta exigência, na verdade, modificava a forma dos seus cérebros. O Alex Hutchinson escreve:

Para aqueles de nós que cresceram no abraço reconfortante de ruas em grelha, que funcionam em linha recta e não mudam de nome a cada dois quarteirões, as cidades do Velho Mundo, como Londres — declarada recentemente a cidade mais confusa do mundo por um questionário a 12.500 pessoas feito pela Nokia Maps — representam um enorme desafio. Portanto, tenham pena dos taxistas. Antes de chegar ao volante dum táxi preto, os candidatos a motoristas têm de passar por um teste chamado «Conhecimento», que os obriga a memorizar cerca de 25.000 ruas e milhares de marcos, uma tarefa que leva de dois a quatro anos.

Um mapa cognitivo com esse nível de detalhe, como se pode imaginar, exige uma boa quantidade de espaço de armazenamento e, como não poderia deixar de ser, a neurocientista do University College de Londres Eleanor Maguire descobriu que a parte posterior do hipocampo dos motoristas de táxi londrinos está aumentada, em comparação com a população geral. A diferença é proporcional ao tempo de profissão que eles levam. A Eleanor Maguire também descobriu, no entanto, que a parte anterior do hipocampo se torna concomitantemente menor. «Portanto, há um preço a pagar pelos conhecimentos», diz ela. Esta diferença é aparente em testes de memória visual e espacial, incluindo um em que foi pedido aos motoristas que memorizassem a posição de dezasseis objectos sobre uma mesa e os pusessem de volta no lugar, depois de terem sido removidos. «Eles foram incrivelmente fracos nessa tarefa», diz ela. Embora ainda não esteja claro se isso acontece porque os requisitos de armazenamento dum mapa de Londres ocupa outras partes do cérebro ou por causa dalgum outro processo, o que estes estudos deixam claro é a plasticidade do cérebro: a sua própria estrutura é moldada pelas exigências que lhe colocamos.

Eu já sabia disso. O meu pensamento é tão espacial que, quando alguém tenta dar-me indicações ao telefone, eu tenho de segui-las no Google Earth ou desenhar um pequeno mapa com base no que me estão a dizer, antes de poder usar as informações. Do mesmo modo, eu seria terrível no teste de «memorizar a posição de dezasseis objectos», porque estou constantemente a deixar as coisas fora do sítio. Então, o meu cérebro quase certamente mostrar a mesma adaptação (distorção) que o estudo descobriu em motoristas de táxi de Londres.

O Alex Hutchinson chega a sugerir que a parte do nosso cérebro que lembra os mapas vai diminuir, à medida que todos nós viermos a contar com sistemas de navegação GPS. Muitos motoristas de táxi de hoje dependem de tais sistemas para tudo. Muitas vezes, fica claro, se se conversar com eles, que eles não têm o mapa mental da cidade em que a geração anterior se baseava. Claro, eles podem ter agora mais facilidade em saber onde estão as chaves e a carteira, pelo que, no fim de contas, pode ser uma coisa boa.

Mas eu suspeito que algumas pessoas sempre precisarão e quererão mapas. Na verdade, eu espero que assim seja, porque só com uma compreensão espacial da cidade se pode estar atento a algumas das suas possibilidades e necessidades. Idealmente, teríamos uma boa formação em crianças sobre como desenvolver ambas as capacidades.

Entretanto, pergunto-me se a diferença entre navegação espacial e narrativa será a causa primeira da muito comum incompreensão mútua entre os departamentos de planeamento e de comunicação dos operadores de transportes colectivos. É uma queixa comum dos planeadores que os publicitários não entendem os valores que impulsionaram o desenho da rede e, portanto, não sabem promovê-la de maneiras que apresentam esses valores. Os publicitários, por sua vez, podem afirmar que os planeadores falam em abstracções e não sabem como comunicar com o utilizador típico. Os planeadores devem ser navegadores espaciais, mas os publicitários são muitas vezes especialistas em contar histórias e sentem-se confortáveis com a narrativa — e isso pode correlacionar-se (estou meramente conjecturando) com uma preferência pela navegação narrativa (mais uma vez, a maioria de nós está num ponto do espectro entre estes dois extremos).

2016030401Para dar um exemplo muito óbvio, a maioria dos responsáveis pelo planeamento do transporte colectivo compreende o papel fundamental da frequência (quantas vezes um veículo passa) e da duração (entre que horas ele passa) do serviço, para determinar a sua utilidade, pelo que eles tendem a compreender o valor dos mapas da rede frequente [3], que destaca as linhas frequentes durante todo o dia, mostrando onde se pode ir sem ter de esperar muito tempo. No exemplo ao lado, da Metro Transit, em Mineápolis (clique para ampliar), o detalhe de todos os serviços é muito complexo, mas o realce amarelo chama a atenção para a rede frequente, onde se pode contar com um serviço a cada quinze minutos.

Assim como as aplicações de mapas, que mostram onde se pode chegar em transporte colectivo em 45 minutos, os mapas da rede frequente são desenhados para serem úteis para navegadores espaciais, que querem ver as suas opções em forma de mapa. Para um navegador narrativo extremo, a frequência e a duração do serviço são abstracções. Se o passageiro está a seguir as instruções dum serviço de planeamento de viagens, não precisa de saber a frequência do serviço ou até que horas ele passa. O programa diz-lhe quando o veículo vem — e isso é tudo o que é preciso saber.

Conjectura: será o baixo teor informativo de muitos mapas de transportes colectivo publicados — nomeadamente a falta de distinção visual entre uma linha que passa a cada dois minutos durante todo o dia e uma que só passa uma vez todas as Quartas-feiras — talvez uma expressão do facto de que os gestores de comunicação, aos quais estes mapas são geralmente confiados, muitas vezes tendem a ser mais narrativos do que espaciais na sua própria navegação? O que aconteceria, se os operadores de transporte colectivo entregassem o desenho dos seus mapas exclusivamente a pessoas que navegam espacialmente, as quais são, portanto, muito sensíveis à qualidade e ao conteúdo informativo dum mapa? Da mesma forma, o desenho de programas para auxiliar o planeamento de viagem, que produzem indicações narrativas sobre como chegar a algum lugar usando o transporte colectivo, deve ser confiado navegadores narrativos. Somente um navegador espacial pode dizer se um mapa funciona. Apenas um navegador narrativo pode dizer se as indicações são claras.

Nos comentários, agradeço informação sobre dados que abordem esta questão. Eu estou a lançar uma ideia, aqui; não a expressar uma opinião fixa. A única coisa de que tenho certeza é que o meu cérebro é tão distorcido como o dum taxista londrino, de modo que preciso da vossa ajuda!


Nota:

a: Este artigo foi traduzido do original [1] pelo editor chefe (n. do T.).

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