Por Gustavo Martins-Coelho [a]

Em 1930, achava-se que a tecnologia permitiria, no final do século, trabalhar quinze horas por semana. Embora a tecnologia tenha progredido conforme antecipado, a mudança do horário de trabalho não aconteceu.

Uma explicação para a não materialização dessa previsão foi o aumento do consumismo: as pessoas têm de trabalhar mais, para produzir mais bens, porque há mais procura. Apesar da sua moralidade, não é verdade: a maioria das novas profissões nada tem que ver com a produção de bens de consumo. No último século, o número de trabalhadores empregados dos sectores produtivos colapsou, enquanto os «prestadores de serviços» triplicaram. As profissões produtivas foram, tal como previsto, automatizadas, mas foram substituídas por profissões administrativas, financeiras, de marketing, jurídicas, de gestão académica, de gestão da saúde, de gestão de recursos humanos, de relações públicas e de apoio, consultoria e segurança às primeiras, acrescidas de profissões como passeadores de cães e entregadores de piza, que só existem, porque toda a gente está demasiado ocupada a trabalhar no resto.

Isto são as profissões da treta.

Parece que alguém anda a inventar trabalhos inúteis, para nos manter ocupados, o que é um mistério, à luz do capitalismo — nenhuma empresa deveria contratar trabalhadores de que não precisa. Mas parece que está a acontecer: quando as empresas fazem despedimentos, os alvos são os trabalhadores que fazem, movem, consertam e mantêm as coisas, enquanto os papeleiros assalariados continuam a aumentar, com contratos de quarenta horas, das quais apenas quinze são trabalhadas (o resto são seminários e Facebook).

A resposta não é económica: é moral e política. Como uma população feliz e produtiva, com tempo livre, é um perigo (o mais próximo que estivemos disso foram os anos sessenta do século XX e veja-se o que aconteceu) e como o trabalho é uma virtude, o sistema mantém-se.


Tenho noção de que o meu argumento vai merecer objecções:

— Quem és tu para dizer quais são as profissões necessárias? O que significa «necessário»? Qual é a «necessidade» dum professor de Antropologia?

É verdade: não existe uma medida objectiva do valor social. Se uma pessoa considera que faz um contributo ao mundo através da sua profissão, quem sou eu para lhe dizer que não? Mas — e todos os trabalhadores que estão convencidos de que os seus trabalhos são inúteis? Como pode haver dignidade no trabalho, se a pessoa que o faz o acha inútil?

Mais: o que dizer duma sociedade que tem procura restrita para poetas e músicos, mas ilimitada para advogados? Se 1 % da população controla mais de metade da riqueza, o «mercado» é o pensamento desse 1 % e o de mais ninguém.

Pior: a regra geral é que, quanto mais útil é o trabalho, menos o trabalhador recebe por ele. Se todos os enfermeiros, lixeiros e mecânicos desaparecessem amanhã, o resultado seria imediato e catastrófico. Um mundo sem professores ou estivadores também teria problemas a curto prazo e um sem escritores e músicos seria incompleto. Mas não é muito claro que sofrimento adviria para a humanidade, sem gestores de hedge funds, lobistas, peritos de relações públicas, corretores de seguros, vendedores de telemarketing, oficiais de justiça, consultores e similares, embora seja possível que melhorasse. Contudo, tirando algumas excepções, como os médicos, a regra é surpreendentemente robusta.

Ainda mais perverso, parece haver um sentimento de que é assim que as coisas devem ser. Toda a gente se indigna contra os trabalhadores dos transportes colectivos, quando as suas greves paralisam uma cidade. Mas o facto dos trabalhadores dos transportes colectivos conseguirem paralisar uma cidade apenas demonstra a necessidade do seu trabalho. Mas ninguém se indigna com os administradores dessas empresas. Parece que as pessoas se indignam mais com o facto deles terem direito a um trabalho útil…

Se alguém tivesse desenhado um sistema com o objectivo de perpetuar uma oligarquia financeira, não teria feito melhor. Os trabalhadores produtivos são continuamente esmagados e explorados, enquanto os restantes são divididos entre desempregados aterrorizados e empregados pagos para fazer nada de útil, mas que se identificam e suportam a classe que detém o poder. Embora o sistema não tenha sido desenhado, existe e é a única explicação para não estarmos todos a trabalhar três ou quatro horas por dia.


Nota:

a: Este artigo é um resumo do texto original do David Graeber, publicado na revista «Strike!» [1].

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