Por Gustavo Martins-Coelho [a]

Vamos fazer uma experiência: pegar numa ficha de avaliação de serviços de saúde e aplicar os seus critérios a outra instituição; comparemos os serviços de saúde norte-americanos (SS) com os serviços postais (SP) do mesmo país. Nesta ficha, cada item é avaliado até ao máximo de nove pontos, pelo que o total é, no máximo 99.

A ficha

  1. Fornece acesso a todos. SS — 5; SP — 9. Há quarenta milhões de norte-americanos sem seguros de saúde e outros tantos com seguros cuja cobertura é insuficiente, mas todos podem usar os correios.
  2. Controla os custos. SS — 3; SP — 7. Os cuidados de saúde dos EUA são os mais caros do mundo; um selo é mais barato do que no resto da maioria dos países.
  3. Promove qualidade e segurança. SS — 3; SP — 7. O erro médico mata 400.000 norte-americanos por ano; os 4 % de cartas perdidas não matam.
  4. Reduz a burocracia. SS — 3; SP — 8. Basta colar o selo no envelope e deitá-lo num marco.
  5. Previne doenças. SS — 4; SP — n/a. Está a melhorar.
  6. Dá prioridade aos cuidados primários. SS — 3; SP — 9. Os médicos especializam-se em hospitais; os correios vão a casa das pessoas seis dias por semana.
  7. Considera os cuidados continuados. SS — 3; SP — 7.
  8. Dá autonomia ao doente. SS — 4; SP — 9.
  9. Salvaguarda a autonomia do médico. SS — 4; SP — n/a.
  10. Limita a responsabilidade profissional. SS — 3; SP — 9. Quase todos os médicos têm medo de ser processados, mas não se ouve falar de processos contra o carteiro.
  11. É permanente. SS — 3; SP — 9. O que impede reformas atrás de reformas dos cuidados de saúde?

Relembrando que 99 é a pontuação máxima, os serviços de saúde obtêm 38 pontos — mau —, enquanto os serviços postais obtêm 74 — suficiente. Se isto fosse um combate, o KO técnico seria declarado ao terceiro assalto. Os serviços postais dão uma abada aos cuidados de saúde, sem sequer receberem dinheiro dos contribuintes.


Nota:

a: Este artigo é um resumo do texto original do George Lundberg, publicado no portal «Medscape» [1].

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