Por Satoshi Kanazawa [a]

No nosso livro «Why beautiful people have more daughters» [Por que as pessoas bonitas têm mais filhas] [2], discutimos o comportamento dos homens e mulheres de forma igual. Começamos com os princípios biológicos gerais da evolução e, de seguida, usamos esses princípios para explicar o comportamento humano no resto do livro. Se, por outro lado, o leitor estiver mais interessado no homem e não no sexo feminino e se quiser começar com o comportamento humano e depois ver como o comportamento típico dos homens é replicado por machos doutras espécies na natureza, então eu recomendo fortemente o livro de Faye Flam «The score: how the quest for sex has shaped the modern man» [O engate: como a busca de sexo moldou o homem moderno] [3].

Faye Flam é uma escritora sobre ciência para o «Philadelphia Inquirer», conhecida pela sua popular coluna de sexo «Carnal knowledge». Ela tem duas coisas que eu invejo fortemente: formação na Caltech e uma participação no «Red Eye» com Greg Gutfeld, no canal Fox News. Também foi nomeada para um pequeno prémio chamado Pulitzer, mas não a invejo tanto por isso.

O subtítulo «como a busca de sexo moldou o homem moderno» descreve o livro com bastante precisão. O livro abre com o «Seduction boot camp», um curso de três dias em que os homens se inscrevem, pelo preço de $2.150 por pessoa, para aprender a técnica para ter qualquer mulher na cama até sete horas após conhecê-la inicialmente. A partir dos encontros de Flam com os homens que ensinam e fazem este curso, no qual ela uma vez participou como observadora jornalística, ela avança para o levantamento da história do sexo. Flam afirma: «a vida veio primeiro, depois o sexo e depois os sexos» (p. 7). Por outras palavras, a reprodução sexual evoluiu muito antes de haver o macho e a fêmea.

A maior parte do livro é sobre o fascinante mundo da reprodução sexual e do comportamento masculino em diferentes espécies na natureza, que Flam descobre através das suas conversas com um grande número de cientistas em todo o mundo, incluindo muitos psicólogos evolutivos de renome (David M. Buss, Daniel Kruger, Robert Kurzban, Geoffrey F. Miller, Daniel Nettle, Steven Pinker e Todd K. Shackelford), bem como o meu colega bloguista Paul Eastwick. Também falei com ela em tempos, quando ela me chamou para falar sobre o meu trabalho, enquanto ela estava a preparar o livro, mas, aparentemente, não era suficientemente bom para entrar no livro! Ainda que Flam fale, ocasionalmente, sobre o comportamento dos homens, a parte mais fascinante do livro é o comportamento dos machos de várias espécies não humanas.

Não só o livro é muito divertido e interessante, mas também é cientificamente rigoroso e informativo; e eu aprendi muito com ele. Por exemplo, ele dissipa alguns equívocos antigos, como o de que a mulher é o «sexo original», que resulta quando o feto não recebe testosterona suficiente para o transformar em homem (e é por isso que os homens têm mamilos). Citando a sua conversa com o primatologista de Stanford Robert Sapolsky, Flam também questiona a noção de que há «machos alfa» entre seres humanos ou mesmo que existem hierarquias de estatuto claras entre os homens. «Nós, seres humanos, tendemos a pertencer a vários círculos sociais. O fulano que esvazia o lixo numa grande empresa pode ser um DJ estrela à noite, ou dominar a equipa de futebol da empresa» (p. 132). Se, de facto, não há hierarquias de estatuto claras entre os seres humanos, pergunto-me o que isso significa para algumas teorias psicológicas evolutivas — como a hipótese de Trivers-Willard —, que dependem do estatuto como uma variável explicativa crucial.

Uma das partes mais fascinantes do livro é sobre o hermafroditismo, e porque não há mais espécies hermafroditas. Flam observa que, mesmo quando dois hermafroditas — cada um com a capacidade de produzir óvulos e espermatozóides — acasalam, ambos tentam acasalar no papel de macho e forçar o outro a ser a fêmea, pois o espermatozóide é mais fácil de produzir do que o óvulo. Nas palavras de Flam, «toda a gente quer ser o macho». Por outras palavras, por causa da anisogamia (o facto de que o óvulo é maior e biologicamente mais custoso de produzir do que o espermatozóide), o macho é por definição um «parasita» em qualquer reprodução sexual (diplóide). O livro despertou o meu interesse no hermafroditismo e na necessidade da evolução dos sexos — o masculino e o feminino — como entidades mutuamente exclusivas.

O título deste artigo («os homens são vis?») é uma das perguntas que Flam coloca no livro, bem como o título dum dos capítulos. Infelizmente, a resposta inegável de Flam, na sua investigação exaustiva do comportamento masculino na natureza é: sim, os homens são vis, excepto o seu namorado. Se o leitor estiver interessado em saber como as forças evolutivas e a selecção sexual moldam os machos dum vasto número de espécies (incluindo a nossa), eu recomendo o livro de Faye Flam [3] (mas só depois de ler «Why beautiful people have more daughters» [2]).


P. S. Faye Flam avisou-me de que eu posso ter deturpado a sua opinião sobre os homens em geral. Ao escrever a recensão, acima, do seu livro, era minha impressão, depois de ter lido todo o livro, que a sua «resposta inegável» à pergunta «os homens são vis?« era «sim, excepto o seu namorado», mas ela aponta que, de facto, ela responde à sua própria pergunta, claramente na negativa, na p. 114. Isto é o que ela diz:

Portanto, se definirmos vileza pela promiscuidade, então alguns homens são-no e outros não e, portanto, a resposta à pergunta «os homens são vis?» é não.

Eu creio que a minha impressão de todo o livro foi indevidamente formada pela descrição dalguns homens que são promíscuos (assim como a minha leitura geral dos estudos da psicologia evolutiva), mas eu não quero atribuir a Faye um ponto de vista que não é o seu. Eu acho que o copo de Faye está meio cheio, enquanto o meu está meio vazio. Ela mantém que o namorado não é vil, contudo.


Nota:

a: Este artigo foi traduzido do original [1] pelo editor chefe (n. do T.).

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