Por Gustavo Martins-Coelho [a]

Ao contrário do que é comummente propalado, a economia alemã é disfuncional. Apesar das empresas mundialmente reconhecidas, do baixo desemprego e do crédito internacional, a Alemanha tem também salários estagnados, bancos falidos, investimento inadequado, uma demografia trágica e um crescimento anémico (o 13.º, desde 2000, na zona do euro). O seu modelo de compressão salarial como subsídio à exportação não pode ser um exemplo a seguir pela zona do euro.

A Alemanha tem cortado nos custos através do desinvestimento. As infraestruturas estão a desmoronar-se e o sistema educativo está a colapsar. A economia é artrítica: a Alemanha é o país da OCDE onde é mais difícil despedir um trabalhador; está em 111.º lugar na classificação do Banco Mundial, relativamente à facilidade com que se inicia um negócio; a sua produtividade cresceu apenas 0,9 %, durante a última década; e as reformas governamentais tardam.

Esta estagnação é suportada pelos trabalhadores. Os seus salários reais são hoje menores do que em 1999, o que esmaga a procura interna, enquanto favorece as exportações.

Este processo foi ajudado por um euro mais fraco do que o marco; pela eliminação da competição francesa e italiana por via da desvalorização cambial; pela explosão da procura nos países do Sul da Europa, após a sua entrada no euro; e pelo crescimento industrial chinês, que se tornou importador das exportações tradicionais alemãs. Porém, com a Europa em crise, a China a desacelerar e as empresas automóveis alemãs a deslocalizarem-se, as exportações alemãs abrandaram.

O excedente externo alemão é um sinal duma economia doente, porque é suportado por salários estagnados e pela redução do investimento interno. Em vez de ser uma âncora de estabilidade na Europa, a Alemanha causa instabilidade. Os bancos alemães contribuíram para a crise financeira e contribuem hoje para a deflação. Muito menos é a Alemanha o motor do crescimento na Europa. A sua fraca procura interna dificultou o crescimento económico nos países do Sul.

A economia alemã precisa duma reforma. A ênfase tem de ser colocada na produtividade, não na competitividade. O governo deve aproveitar a taxa de juro favorável para investir e encorajar as empresas a fazerem o mesmo. E o país tem de acolher jovens imigrantes, para estancar o seu declínio demográfico. Este é o modelo a seguir na Alemanha; e o exemplo a dar ao resto da Europa.


Nota:

a: Este artigo é um resumo do texto original do Phillipe Legrain, publicado na agência «Project Syndicate» [1].

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